sexta-feira, 1 de abril de 2016

Tolerância

O mundo está um saco. Parece que a humanidade perdeu a capacidade de ter opiniões diversas sem entrar em guerra por isso. Pensando bem, acho que nunca fomos capazes de discordar de maneira salutar, e agora não tem sido diferente. 


Uma das polêmicas das vez (são tantas que não da para eleger uma só) que tem abalado a internet e posto em ação todos os juízes online de plantão é uma médica pediatra de Porto Alegre que achou por bem não ser mais a pediatra do filho de uma suplente a vereadora da capital do Rio Grande, filiada do Partido dos Trabalhadores (PT).


Vamos aos fatos:
- A médica pediatra optou em não atender mais ao filho da vereadora suplente e o comunicado da decisão foi realizado por mensagem de WhatsApp, que segue na íntegra:


17/03/2016, 12:06 – Maria Dolores Bressan: Bom dia Ariane. Estou neste instante declinando em caratér irrevogável, da condição de Pediatra de Francisco. Tu e teu esposo fazem parte do Partido dos Trabalhados( ele do Psol) e depois de todos os acontecimentos da semana e culminando com o de ontem, onde houve escárnio e deboche do Lula ao vivo e a cores, para todos verem(representante maior do teu partido), eu estou sem a mínima condição de ser Pediatra do teu filho.

Poderia inventar desculpas, te atender de mau humor, mas prefiro a HONESTIDADE que sempre pautou minha vida particular e pessoal.

Se quiser posso fazer um breve relatório do prontuário dele para tu levar à outro pediatra.
Gostaria que não insistisse em marcar marcar consultas mais.

Estou profundamente abalada, decepcionada e não posso de forma nenhuma passar por cima dos meus principios.

Porto Alegre tem muitos pediatras bons. Estarás bem acompanhada.

Espero que compreendas.

17/03/2016, 12:06 – Maria Dolores Bressan: Já vou desmarca aqui da agenda a consulta do Fransico.

17/03/2016, 12:10 – Ariane Leitão: Por favor deixe o prontuário do Francisco pronto, irei pegar o mais breve possível. No mais, só fico chocada. Só isso… no entanto, também prefiro declinar na convivência.

17/03/2016, 12:13 – Ariane Leitão: Ainda mais , em se tratando do cuidado do meu filho.

17/03/2016, 12:16 – Maria Dolores Bressan: Assim que estiver pronto peço para minha secretåria te avisar.

17/03/2016, 12:16 – Ariane Leitão: Obrigada


Vamos à legislação:

Código de Ética Médica:

Capítulo 1: Princípios Fundamentais

I- A Medicina é uma profissão a serviço da saúde do ser humano e da coletividade e será exercida sem discriminação de nenhuma natureza.

VII - O médico exercerá sua profissão com autonomia, não sendo obrigado a prestar serviços que contrariem os ditames de sua consciência ou a quem não deseje, excetuadas as situações de ausência de outro médico, em caso de urgência ou emergência, ou quando sua recusa possa trazer danos à saúde do paciente.

Capítulo 2: É Direito do Médico

I - Exercer a Medicina sem ser discriminado por questões de religião, etnia, sexo, nacionalidade, cor, orientação sexual, idade, condição social, opinião política ou de qualquer outra natureza.
Capítulo 5: Relação com Pacientes e Seus Familiares

É Vedado ao Médico:

Art. 36. Abandonar paciente sob seus cuidados.
§ 1° Ocorrendo fatos que, a seu critério, prejudiquem o bom relacionamento com o paciente ou o pleno desempenho profissional, o médico tem o direito de renunciar ao atendimento, desde quecomunique previamente ao paciente ou a seu representante legal, assegurando-se da continuidade dos cuidados e fornecendo todas as informações necessárias ao médico que lhe suceder.



Vamos ver se eu consegui acompanhar:
- Pediatra renunciou a cuidados do paciente alegando questões partidárias;
- Mãe concordou em declinar a convivência; 
- Pediatra avisou previamente;
- Pediatra forneceu prontuário do paciente;
- Mãe denunciou pediatra ao Conselho Regional de Medicina;
- Juízes da internet estão advogando para que a médica perca o CRM pois a atitude foi antiética, antiprofissional, coxinha e fascista. 




Sendo muito simplista e prática, tudo o que o Código de Ética exige para que um médico possa renunciar ao atendimento a um paciente, foi feito. Só podemos começar a discutir pelos motivos que levaram a médica a decidir revogar a condição de pediatra do filho da vereadora suplente.


Quando começamos essa discussão é que a gente volta ao ponto do grande saco que está o mundo atual e do inferno político-econômico que está submerso esse país. Estamos divididos em coxinhas e petralhas, em ricos e pobres, em pretos e brancos, em gays e homofóbicos, em machistas e feminazis, em quem compra em Miami e quem compra na 25 de março, em quem come pão com mortadela e quem come filé mignon. 


As pessoas não conseguem ter opiniões diferentes e conviver em paz com isso. Essa falta de tolerância fica extremamente clara quando uma pediatra não consegue atender à criança porque a mãe é PTista. E a mesma falta de tolerância é vista na mãe que não consegue aceitar que a médica deve ter autonomia no exercício da sua profissão, e, com isso, deve ter o direito de renunciar a um atendimento profissional quando não há bom relacionamento. Atitudes, essas, que espelham a intolerância presente na sociedade que crucificam médica e mãe, dependendo de que lado da balança política o juiz está. 


Muitos se fala em diversidade, muito se fala em tolerância. Muito pouco se faz, e a sensação que eu tenho é que, no quesito tolerância, a gente anda para traz. O mundo está mesmo um saco.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Freaking genetics...


Duas coisas que eu NUNCA nego: 
- pastel de camarão;
- chocolate.

É o que tem pra sexta. Boa noite. 

terça-feira, 29 de julho de 2014

Ironias da Vida.

Já começo avisando que esse é um texto bem pessoal e pouco informativo sobre qualquer coisa que não seja minha própria vida e visão das coisas. Estou escrevendo unicamente porque tem coisas e especialmente ideias que só saem de mim escritas. Estou publicando porque gosto de reler algum tempo depois, quase como se fosse outra pessoa que tivesse escrito, e conseguir analisar quem eu era e quem eu sou. As vezes é quase como se realmente fosse outra pessoa.


Partindo para o que interessa (ou não), eu sempre tive (e tenho) um pouco de vergonha do meu lattes. Claro que só o fato de eu não ter "criado uma conta" e preenchido o lattes como um perfil do orkut já é motivo para orgulho. Entretanto é fato que eu nunca fui lá muito dedicada para a iniciação científica.

Dei um enfoque muito prático para a minha graduação e, após formada, ganhei meu pão sem olhos acadêmicos de (futura) pesquisadora. Resultado: tenho uma (pois é, UMA) publicação ostentada no meu meu lattes, que nem é lá muito minha nem pode ser chamada de "ó que publicação".

Aí a vida, que é essa caixinha de surpresas (sábio Joseph Climber), fez de mim uma funcionária pública. E como (quase) todo funcionário público, a progressão de carreira é bem generosa para formação adicional. Resultado: resolvi passar por um processo seletivo de mestrado, o qual vim a ser aprovada, apesar do meu lattes (é, aquele que tem uma mísera publicação). 

Então agora eu sou médica, funcionária pública, mestranda, futura epidemiologista (quem me viu, quem me vê, han?).

Toda essa ladainha para dizer que eu decidi fazer dois cursos de extensão (progressão de carreira que não é tão generosa assim, mas um pouco mais de dinheiro é melhor que um pouco menos de dinheiro). Em um desses cursos eu, como boa antissocial, estava sozinha mas de butuca na conversa das monitoras que estavam sentadas próximas à mim. Descobri que eram doutorandas e pós-doutorandas do programa e um dos tópicos da conversa era o genuíno medo das moças em não conseguir emprego terminado o pós doutorado.

Obviamente eu fiquei com isso na cabeça (caso contrário não estaria escrevendo), cheguei em casa e fui catar o lattes das moças. Encontrei páginas e mais páginas de publicações de pessoas que tem pouca coisa mais de idade que eu, e isso estraçalhou meu ego já insatisfeito com meu curriculo.... vamos chamar de insuficiente. 

Aí eu pensei: alguém com duas graduações, mestrado, doutorado e pós-doutorado em andamento, dona de um dos lattes mais recheados que eu já vi, tem medo de não conseguir emprego. Preocupação essa que alguém como eu, com uma mísera graduação e com um artigo publicado em congresso, não enfrento.


Toda essa ladainha para expressar como eu ainda me surpreendo com todas as ironias da vida. E que não é saudável se apavorar muito com o terrorismo que as pessoas fazem sobre diversas coisas na vida, especialmente a vida acadêmica. Passei no processo seletivo do CEFET-RS (atual IFSUL-Pelotas), passei no vestibular pra medicina, passei em um concurso público, passei em um processo seletivo de mestrado, e agora vou elaborar uma pesquisa e defender uma dissertação. A gente tem que estudar e ser bom no que faz e no que sabe, os méritos vem com o tempo, não importa se eles estão escritos nem se podem ser comprovados com certificados. 



Falando em estudar, simbora que ser dotôra² não vai ser mole. 

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Medicina do PT

Não sei que tipo de diarreia mental teve a nossa presidentA, muito menos que tipo de drogas chupam essas pessoas que engolem os cagalhões que o Ministro da Saúde fala. Se bem que não dá pra confiar muito no juízo crítico de gente que vota no Marcos Feliciano e/ou acredita que o Lula não sabia de nada. O fato é que esse pessoal, tanto quem governa quanto quem confia, parece que comeu merda e ainda não acordou para a sobremesa.

Estudei grande parte da minha vida em escola pública. Fiz meu curso de Medicina em Universidade pública. Diversas vezes utilizei os serviços do Sistema Único de Saúde, também público. E isso, pelo visto, faz de mim uma grande devedora para a sociedade. Como se meus pais não tivessem pago impostos a vida inteira, e como se meu salário atual, fruto do MEU suor, em conjunto com o suor dos meus pais, não ficasse QUARENTA por cento retido na fonte.

Então, um bando de cretino sem um pingo de vergonha na cara sugere que outros indivíduos, também privilegiados com louça pra lavar como eu, paguem com trabalho forçado uma dívida que contraíram apenas por estudar em escola pública. Como se, por ter nascido em uma família que foge aos padrões de miséria nos tornasse menos dignos de usar aquilo que por constituição também é nosso.

Pois saibam que, se ela existe, eu considero minha dívida paga. Meus pais a pagaram com toda uma vida de impostos retidos na fonte. Mais que isso, nos próprios termos desse cretino, eu ajudei a pagar minha dívida nos DOIS ANOS de estágio obrigatório que todo aluno de medicina cumpre no SUS. Nos plantões na maternidade, nos postos de saúde, na ala clínica, no bloco cirúrgico, na pediatria. Em todas as vezes que mandei embora uma gestante com contrações procurar outro hospital porque o nosso estava sem vaga. Em todas as pessoas que eu vi agonizar por falta de vagas em uma UTI. Em todas as crianças que não tiveram a chance de viver porque a mãe não fez pré Natal. Em todos os usuários de drogas que eu devolvi para a família porque não tinha vaga para internar. Em todas as vezes que EU precisei explicar o porquê eu não poderia fazer mais devido a um sistema de saúde falido. 

Eu paguei minha suposta dívida social, sim. Eu tive uma formação humanizada, sim. Alias, é justamente devido à minha humanização que eu estou na luta contra as atrocidades que esse governo quer impor goela abaixo. Impor dois anos de trabalho forçado aos formando de medicina, vetar o ato médico, importar cubanos... Eu já sou formada, eu já tenho emprego, eu já não dependo mais exclusivamente do SUS. Pessoalmente, poderia nem conseguir juntar palavras para descrever o quanto eu estou cagando para tudo isso. Entretanto eu to aqui gastando a ponta dos dedos defendendo um ponto unicamente porque eu acho justo, e porque acho que o povo brasileiro merece mais. Mais qualidade nas educação, na saúde, na segurança pública. Merece mais em um sem número de coisas, mas acima de tudo, merece mais respeito, merece mais senso crítico. E, porque não, mais humanização dos médicos, mas principalmente, mais bom senso, ética e compromisso dos nossos gestores. 

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Médico é Raça Ruim


"Médico é raça ruim", ouvi minha mãe dizer repetidas vezes ao longo da vida. À época do vestibular tive dificuldade para escolher o que queria fazer pelo resto da vida. Nada diferente de quase qualquer "aborrecente", imagino. Foi em uma Feira de Profissões do antigo CEFET-RS que dei o braço a torcer a assumi que, gostando de química e biologia, talvez pudesse ser uma boa médica. E foi assim que, totalmente desinformada da realidade, escolhi cursar medicina, contrariando todos os conselhos da minha mãe.

A primeira aula da faculdade foi Anatomia. Interessante, até. Porém repleta de novos e difíceis termos ensinados por um professor careca, vermelho, gordinho e prepotente. Foi a primeira pessoa na vida que despertou em mim uma imensurável vontade de mandar tomar lá onde o sol não chega. Aos dezessete anos tive dificuldade para entender por que algumas pessoas sentem a necessidade de humilhar, de se comportar como social e moralmente superior. "Médico é raça ruim", dizia minha mãe em resposta às minhas infindáveis queixas.

Ao longo dos anos conheci incontáveis "doutores". Alguns formados, outros não, alguns com título de doutorado, outros não. Conheci pessoas que, dentro de uma faculdade de medicina, não possuíam a capacidade tratar gente como gente, fosse paciente, enfermeiro, aluno ou colega. Encontrei pessoas que não conheciam agradecimentos, quiçá gentilezas. Convivi com médicos (ou quase médicos) que não se comportavam com um quarto da educação e polidez que já recebi de gente analfabeta, sem estudo, humilde e moradora da periferia. A duras penas passei a compreender com mais proximidade o que as palavras já desgastadas da minha mãe queriam realmente dizer. Alguns se formam médicos, outros nascem "doutores".

Claro que pessoas grosseiras e mal educadas são encontradas em qualquer lugar, não é privilégio de nenhuma classe. O problema maior reside no fato de médicos serem profissionais especializados no cuidado de pessoas e, no entanto, muitos deles não saberem sequer se comportar como uma. "Doutores" que tratam mal a seus alunos, colegas, pacientes. E a gente bem sabe que pacientes usualmente são indivíduos fragilizados que precisam de cuidados, não de descortesias.

Ninguém é obrigado a ser uma pessoa agradável, eu que o diga. Porém todos deveriam ao menos se comportar feito uma, especialmente quando se lida tão de perto com a saúde e a fragilidade humana. Que os estudantes de medicina cheguem na faculdade com humildade suficiente para não endurecer e não enrudecer, e que assim possam se formar médicos que cuidam de gente, e não especialistas em doença.