O mundo está um saco. Parece que a humanidade perdeu a capacidade de ter opiniões diversas sem entrar em guerra por isso. Pensando bem, acho que nunca fomos capazes de discordar de maneira salutar, e agora não tem sido diferente.
Uma das polêmicas das vez (são tantas que não da para eleger uma só) que tem abalado a internet e posto em ação todos os juízes online de plantão é uma médica pediatra de Porto Alegre que achou por bem não ser mais a pediatra do filho de uma suplente a vereadora da capital do Rio Grande, filiada do Partido dos Trabalhadores (PT).
Vamos aos fatos:
- A médica pediatra optou em não atender mais ao filho da vereadora suplente e o comunicado da decisão foi realizado por mensagem de WhatsApp, que segue na íntegra:
17/03/2016, 12:06 – Maria Dolores Bressan: Bom dia Ariane. Estou neste instante declinando em caratér irrevogável, da condição de Pediatra de Francisco. Tu e teu esposo fazem parte do Partido dos Trabalhados( ele do Psol) e depois de todos os acontecimentos da semana e culminando com o de ontem, onde houve escárnio e deboche do Lula ao vivo e a cores, para todos verem(representante maior do teu partido), eu estou sem a mínima condição de ser Pediatra do teu filho.
Poderia inventar desculpas, te atender de mau humor, mas prefiro a HONESTIDADE que sempre pautou minha vida particular e pessoal.
Se quiser posso fazer um breve relatório do prontuário dele para tu levar à outro pediatra.
Gostaria que não insistisse em marcar marcar consultas mais.
Estou profundamente abalada, decepcionada e não posso de forma nenhuma passar por cima dos meus principios.
Porto Alegre tem muitos pediatras bons. Estarás bem acompanhada.
Espero que compreendas.
17/03/2016, 12:06 – Maria Dolores Bressan: Já vou desmarca aqui da agenda a consulta do Fransico.
17/03/2016, 12:10 – Ariane Leitão: Por favor deixe o prontuário do Francisco pronto, irei pegar o mais breve possível. No mais, só fico chocada. Só isso… no entanto, também prefiro declinar na convivência.
17/03/2016, 12:13 – Ariane Leitão: Ainda mais , em se tratando do cuidado do meu filho.
17/03/2016, 12:16 – Maria Dolores Bressan: Assim que estiver pronto peço para minha secretåria te avisar.
17/03/2016, 12:16 – Ariane Leitão: Obrigada
Vamos à legislação:
Código de Ética Médica:
Capítulo 1: Princípios Fundamentais
I- A Medicina é uma profissão a serviço da saúde do ser humano e da coletividade e será exercida sem discriminação de nenhuma natureza.
VII - O médico exercerá sua profissão com autonomia, não sendo obrigado a prestar serviços que contrariem os ditames de sua consciência ou a quem não deseje, excetuadas as situações de ausência de outro médico, em caso de urgência ou emergência, ou quando sua recusa possa trazer danos à saúde do paciente.
Capítulo 2: É Direito do Médico
I - Exercer a Medicina sem ser discriminado por questões de religião, etnia, sexo, nacionalidade, cor, orientação sexual, idade, condição social, opinião política ou de qualquer outra natureza.
Capítulo 5: Relação com Pacientes e Seus Familiares
É Vedado ao Médico:
Art. 36. Abandonar paciente sob seus cuidados.
§ 1° Ocorrendo fatos que, a seu critério, prejudiquem o bom relacionamento com o paciente ou o pleno desempenho profissional, o médico tem o direito de renunciar ao atendimento, desde quecomunique previamente ao paciente ou a seu representante legal, assegurando-se da continuidade dos cuidados e fornecendo todas as informações necessárias ao médico que lhe suceder.
Vamos ver se eu consegui acompanhar:
- Pediatra renunciou a cuidados do paciente alegando questões partidárias;
- Mãe concordou em declinar a convivência;
- Pediatra avisou previamente;
- Pediatra forneceu prontuário do paciente;
- Mãe denunciou pediatra ao Conselho Regional de Medicina;
- Juízes da internet estão advogando para que a médica perca o CRM pois a atitude foi antiética, antiprofissional, coxinha e fascista.
Sendo muito simplista e prática, tudo o que o Código de Ética exige para que um médico possa renunciar ao atendimento a um paciente, foi feito. Só podemos começar a discutir pelos motivos que levaram a médica a decidir revogar a condição de pediatra do filho da vereadora suplente.
Quando começamos essa discussão é que a gente volta ao ponto do grande saco que está o mundo atual e do inferno político-econômico que está submerso esse país. Estamos divididos em coxinhas e petralhas, em ricos e pobres, em pretos e brancos, em gays e homofóbicos, em machistas e feminazis, em quem compra em Miami e quem compra na 25 de março, em quem come pão com mortadela e quem come filé mignon.
As pessoas não conseguem ter opiniões diferentes e conviver em paz com isso. Essa falta de tolerância fica extremamente clara quando uma pediatra não consegue atender à criança porque a mãe é PTista. E a mesma falta de tolerância é vista na mãe que não consegue aceitar que a médica deve ter autonomia no exercício da sua profissão, e, com isso, deve ter o direito de renunciar a um atendimento profissional quando não há bom relacionamento. Atitudes, essas, que espelham a intolerância presente na sociedade que crucificam médica e mãe, dependendo de que lado da balança política o juiz está.
Muitos se fala em diversidade, muito se fala em tolerância. Muito pouco se faz, e a sensação que eu tenho é que, no quesito tolerância, a gente anda para traz. O mundo está mesmo um saco.

