sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Tatu de Academia

Não lembro se eu já comentei (publicamente) sobre o gostosão da academia que presenciei tirando tatu do nariz. A bem da verdade, comumente tuíto inutilidades do meu dia e, feliz ou infelizmente, meus momentos de malhação fornecerão inestimável material para tuitadas inúteis até o final dos meus dias de internet. Entretanto, para a (in)felicidade dos meus folowers/leitores, sou uma aspirante a escritora tuiteira um tanto quanto sem tempo para tanta inutilidade (pois imaginem se a dedicação literária fosse exclusiva), logo, não devo ter comentado nada a esse respeito, de fato. Muito embora, como dedicada aspirante a escritora que sou, acontecimentos banais do meu dia a dia quase sempre despertam particular interesse pela possibilidade de se tornarem material para futuras divagações pseudoliterárias. O que minha mente limitada não foi capaz de imaginar, a princípio, é que um colega de malhação limpando o salão pudesse encaixar-se nessa categoria.

Em fim, há certo tempo, alguns meses, talvez, estava lá eu, suada, fedida e esbaforida, naquele misto de desânimo e torpor entre uma série e outra da musculação. Olhar perdido ao maior horizonte que as paredes mofadas permitiam em busca de algum estímulo para manter a promessa do fim do ano passado. Até que me deparo com um jovem, em seus 20 e poucos anos, absorto em pensamentos ainda mais que eu, também curtindo o repouso muscular até a próxima série de exercícios. Moreno, alto, bonito e sensual, talvez seja a solução dos meus problemas, carinhoso, bom nível social. Ta, exagerei, né? Latino? Culpa dos tóxicos. Mas o cara era boa pinta, alto, sarado na medida certa, nem pra mais nem pra menos, tudo no lugar. Aí a criatura resolve me tirar dos meus devaneios de encalhada (bem me lembro dessa época) tirando tatu do nariz, mas tatu daqueles pra concurso de tatu, analisa bem a obra de muco ressecado e depois limpa na calça.

Preciso nem expressar em palavras o tamanho da minha decepção, né? E olha que naqueles não mais que 30 segundos que separaram o meu devaneio daquela visão, talvez a mais a desnecessária de todo o meu tempo de academia, ainda nem tinha dado tempo de eu construir um amor platônico pelo indivíduo que sequer tinha apercebido-se da minha presença. Claro que eu também não preciso dizer que não interessa o grau de desenvolvimento muscular da criatura, muito menos a desenvoltura intelectual e, francamente, tenho que dizer que nem o volume da carteira iria fazer muita diferença depois desse dia, eu jamais conseguiria vê-lo novamente sem que minha mente fizesse o favor de evocar obcessivamente a imagem daquele tatu sendo resgatado.

Meses depois eu ainda estou malhando, nem tão firme nem tão forte - maldito chocolate -, porém diariamente pagando para passar trabalho e coletar material para discussão barata e filosofia de banheiro. Divagando entre uma série e outra, pensando quem sabe no livro de sexo das bactérias que eu vi ontem na feira do livro, novamente vejo o jovem do parágrafo anterior também relaxando a musculatura bem mais firme e mais forte que a minha. Dessa vez ele está de costas para mim. Estou sorrindo comigo mesma revendo a imagem exaustivamente descrita acima quando o rosto dele entra no meu campo de visão, refletido pelo espelho. Qual não é a minha surpresa quando vejo que o rapaz está, novamente, tirando tatu do nariz.

Nesse dia eu tive certeza de duas coisas: preciso de uma academia mais cara, embora Berlusconi tenha provado que dinheiro não necessariamente é garantia de educação (para saber mais clique aqui); algum dia deixarei o patamar de aspirante e serei escritora.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Finados

Dia de finados, não sendo visto como mais um feriado dentre tantos outros feriadões previstos na segunda metade de cada ano, é um dia de luto. Um feriado dedicado a homenagear os mortos. Como tal, experenciado do modo mais próximo ao previsto, em geral, pelas pessoas mais velhas. É inevitável que o passar do tempo traga consigo cadáveres, os quais acumulam-se como pano de fundo das vidas, tal qual álbuns de fotos empoeirados em gavetas de estantes.

Aos 23 anos não acumulo muitos cadáveres nos meus álbuns de fotos empoeirados. Aliás, sequer há tempo suficiente para o acúmulo de poeira nos porta-retratos adornando as prateleiras da estante de uma vida de vinte e poucos anos. Entretanto também tenho fotos de gente que não existe mais, esquecidas em alguma gaveta junto a cartas antigas, eternizando amizades passadas e amores perdidos em um tempo que não voltará. Meu cemitério é particular, e o epitáfio é de composição própria. Coleciono Cristines sucumbidas ao longo dos tropeços e quedas da minha biografia.

A criança loira, cacheada e assustada, calçando melissa rosa adornada com a abelhinha, equilibrando-se na ponta dos pés tentando visualizar a mãe por cima do balcão em alguma atitude de adulto sem muito sentido à época, há muito tempo às pressões da suposta "chatice" da vida de criança. Especialmente quando se é uma criança com "síndrome de Peter Pan reversa". Não suportou viver na doce prisão da falta de preocupação infantil, culminando, portanto, no suicídio da despreocupada alegria infantil. Nenhum final mais justo para a criança que queria ser gente grande.

A versão adolescente, morena, apaixonada, chorona, carente e vestibulanda da Cristine também se perdeu em alguma página rasgada no meio do caminho. Primeiro dia de aula da faculdade de medicina, quem sabe? Primeira briga presenciada entre os colegas, talvez aquela motivada por banco de questões de provas, é provável. Primeira verdadeira decepção amorosa, daqueles pés na bunda dignos de contos motivacionais de livros de autoajuda, quiçá. Ou talvez tenha sido apenas a tinta de cabelo, afinal de contas. Nem todo poço é tão profundo quando parece, afinal de contas.

Ruiva, fortemente maquiada, vestes escuras, coturnos femininos (?) nos pés e infinitas estacas no coração, por vezes lágrimas nos olhos. O total despreparo e desumano desamparo do pseudo-médico que inicia o contato com a morte e o sofrimento alheio deixam mais uma Cristine sem vida esquecida em meio à literatura. Expurgo que jaz à beira da estrada da vida, abatida por decepções talvez desumanas, ainda que infinitamente necessárias à sobrevivência na selva de pedra em somos injustamente inseridos. Índole "leal e boa" está enterrada ao lado da Cristine RPGista, fanática, fiel e, simbolicamente, de cabelos ruivos.

Assumindo novamente as madeixas louras, sem, entretanto, reassumir a bondade infantil, visto-me como mulher quase tentando esconder a criança assustada que perdeu a mãe de vista, escolhendo os passos sozinha sem ter a quem dar a mão. Em alguma cova cuja lápide consta meu nome está enterrada também a capacidade de sentir pena, desgraça não me comove mais. Nem a minha própria, se querem saber, quem dirá a alheia. Enterrei também a necessidade de agradar, portanto não disfarço mau humor nem dispenso grande energia tentando parecer simpática. Gasto meu ATP com competência, o resto é opcional. E, como tem coisas que, feliz ou infelizmente, nunca mudam, sempre fui adepta do kit básico.

Daqui a pouco tudo muda. Ou nada muda. Ou mudam só algumas coisas coisas. Ou até o que tinha pra mudar já mudou. Essa é a maravilha da vida, a gente tem a chance de mudar, reinovar, reinventar, redecidir, recomeçar. Nem sempre é pra melhor, é bem verdade, todavia o conceito de melhor ou pior depende das lentes que se usa e de qual ângulo que se analisa. Depende. Hoje sei que estou melhor do que já fui. E pior também. Estou em luto por todas as versões de mim mesma que, tendo quisto ou não, deixei para trás. Coleciono, assim, cadáveres, uns à mostra, na estante, outros escondidos, sob o tapete. Que a pilha aumente pois, tal qual as rugas na face de um idoso, provam a carga de experiência adquirida. E que junto com as rugas eu consiga adquirir sabedoria na mesma velocidade que adquiro conhecimento, aproveitando o melhor e o pior das diversas versões de mim.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Esse Final de Faculdade

Pois então que a galerinha tem tido certa dificuldade em saber se o que eu escrevo aqui é verdade ou ficção. Já que ler nota de autor não parece ser o forte da gurizada, pois ainda assim ficaram torrando meu saco inexistente no msn, orkut e tuíter, o primeiro parágrafo deste texto será inteiramente dedicado aos meus mais fiéis e amados (e também aos não tão amados assim) leitores: essa bodega dessa texto é sobre a minha singela e sem graça vidinha. Podem começar a apurrinhar minha falta de paciência agora.

Antes de mais nada, vou explicar como funcionam estágios finais na faculdade de medicina - UFPel, porque eu já to de saco cheio de explicar individualmente pra cada um que pergunta. Seguinte, os 4,5 anos iniciais são de atividades teorico-práticas, avaliadas semestralmente nas infinidades de cadeiras de compõe cada semestre. Como quase qualquer faculdade normal. O ano e meio final é de estágio prático obrigatório. OBRIGATÓRIO, viram bem? Três meses em cada uma das áreas básicas, a saber: ginecologia e obstetrícia, pediatria, cirurgia, clínica médica e medicina comunitária. Qualquer energúmeno que faça as contas perceberá que faltam ainda 3 meses para completar os 15 que compõe o período de estágio final (é, sem férias, ta pensando que estudante de medicina é gente?). Esses 3 meses, chamado de estágio optativo, cada aluno faz na área que bem entender, no lugar que bem quiser. Apenas esses 3 meses o aluno escolhe, os demais, como o nome já diz, são obrigatórios e nas dependências da faculdade de medicina. Explicado isso, dou início finalmente ao que tinha em mente para hoje.

Formatura prevista para dezembro, estou concluindo a faculdade no estágio da gineco. Isso levando em conta que toda aquela baderna que o colegiado de curso fez com o meu meu fim de faculdade venha a se resolver. De qualquer modo, com enade ou sem enade, eu tenho que atender à mulherada no ambulatório, cumprir minhas horas de plantão na maternidade e trazer ao mundo quantas criancinhas tiverem que vir. Sempre, é claro, sendo não paga para isso. Aí vem algum babaca e diz que não pago nada pela faculdade, essa mão de obra gratuita não passa de um modo de pagar pelo curso que o governo me ofereceu. Tenho vontade de enfiar lá onde não pega sol do babaca em questão a quantidade de impostos que eu pago e que, portanto, pagam minha formação. Não o faço porque seria radical demais, até pra mim.

Mas é exatamente aí, naquela madrugada sem dormir contando batimentos cardíacos fetais + contrações uterinas a cada 20 minutos, tentando ignorar o grito histérico da futura mãe e com os dedos enluvados enfiados - literalmente - no útero da criatura tentando mensurar a quantas anda a descida da cabeça da criança, que eu penso seriamente que tipo de pessoa imagina essa cena quando perguntam lá no jardim de infância o que querem ser quando crescer.

Sejamos francos, quem quer ser médico deve se imaginar lindo e loiro com um bebezinho cheiroso no colo, ou olhando um raio-X, ou sei lá, qualquer dessas cenas meigas e fajutas que as pessoas montam para eternizar, emperequetadas, quando tiram fotos para a formatura. Não acredito que alguém queira ser médico para cheirar secreção vaginal, ou pra cauterizar verruguinha de DST, ou pra esperar uma criança sair de uma perseguida detonada. Não, não e não. Não era isso que eu queria fazer quando eu crescesse.

Em fim, a coisa boa desse estágio é que ele acaba. E com ele a faculdade. E depois dessa provação de estômago e paciência eu nunca mais vou enfiar meus dedinhos em uma perereca. Nem na minha, antes que perguntem. Pra vocês verem o tamanho do meu trauma. Todo dia eu me pergunto se ainda da tempo de largar a faculdade e ir fazer outra coisa. Jornalismo, já que não precisa de diploma, ou viver como comediante e morrer de fome. Ou quem sabe eu aguento as secreções mais um tempinho, estudo um pouco mais e encaro o lado da medicina que me facina mas que, paradoxalmente, não faz parte da medicina tanto assim. Esquizofrênicos e deprimidos, aguardem, eu demoro mas eu chego. Viva, certamente, mentalmente sã talvez nem tanto.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Poder de Decisão

Nota da autora: nego que não conhece o significado de FICÇÃO e vai ficar torrando meu saco por causa desse texto pode cair fora daqui agora. Grata. Não to educadinha hoje.


Ela estava ali sentadinha na mesa da minha cozinha tentando entender sozinha os mistérios revolucionários do seu brinquedo novo. Eu, imerso em livros, cadernos e contas, não dei, de fato, muita atenção às necessidades femininas da minha namorada. Nesses momentos não faz muita muita diferença ser uma necessidade silenciosa ou gutural, não dei ouvidos às palavras que deixavam aqueles lábios que em outros momentos tanta capacidade tem de prender total e completamente minha atenção.

Perdi a conta de quantas vezes ouvi meu nome ser chamado, contendo um ímpeto de raiva, como provavelmente a bela jovem à minha frente não teria sido capaz de fazer. Apenas desviei os olhos dos riscos que fazia e a olhei, irritada com sua incompetência digital. Entretanto o que vi estava muito distante de ser uma jovem de 23 anos sentada olhando para a tela de um computador. Enxerguei uma moça de cabelos soltos, rodelas de cabelo rebeldes caindo ao rosto, cotovelos fixos sobre a mesa, queixo apoiado sobre as maõs e, talvez e o que verdadeiramente tenha prendido meus olhos, volumosos seios que pareciam teimar em querer fugir da blusa que os abrigavam, não que esta fizesse muito esforço para tal.

Verde. Acho que a blusa era verde. E o sutiã, o qual teimosamente mostrava sua cara, era rosa, deliciosamente rosa adornado com corações brancos. Não preciso dizer que por certo tempo não tenho sequer a mais remota memória das palavras proferidas pela donas dos rebeldes seios. Em compensação lembro detalhadamente da rebeldia com que os corações mais mostravam-se à medida que a irritação com a dificuldade digital crescia. Bendita seja a inclusão digital. Fui retirado do meu transe-símile com uma batida de punho na mesa, um puxão às avessas da roupas tentando arrumar o decote (o que acabou por, momentaneamente, desnudar um pouco mais o seio rebelde) culminando com passos largos em direção à sala, expondo-me o ângulo posterior que eu ainda não havia tido contato visual naquele fim de tarde. Deveria lembrar de dizer que a academia estava dando resultado, posteriormente.

A respiração feminina ruidosa no cômodo ao lado me fez entender imediatamente que nossas horas de contato carnal naquele feriadão vindouro estavam seriamente comprometidas caso eu não fizesse o que todo homem assume o compromisso silencioso de fazer quando adentra em um relacionamento estável: massagear o ego da namorada. Pernas cruzadas, pezinho sacudido freneticamente, beiço saliente, cara amarrada, braços cruzados, decote saliente. Sentei no braço do sofá, abracei minha garota em bloco, beijei ruidosamente a bochecha cheirosa, arranquei um sorriso tímido daquela boquinha carrancuda. Arrisquei a mão boba naquele espacinho entre o bojo rosa com corações e o pedaço de carne, agora bicudinha, que tanto me cativava. Ela tirou minha mão dali, é claro, porém não sem um sorriso no rosto. Levantou-se e voltamos a nossas atividades iniciais.

Ainda que muitas vezes mais ela tenha proferido meu nome seguido de alguma pergunta que eu não respondi, duvido que ela tenha conseguido concentrar-se em desvendar o windows 7 muito melhor que eu em tentar entender a "matemática sem números", como ela chama. Aqueles corações teimosamente me encaravam, e eu a eles. Assim como não raro fui flagrado por aqueles olhinhos verdes acompanhando o trajeto dos meus até sua blusa também verde, a qual inexoravelmente voltava a cobrir o pedacinho extra de carne à mostra nesse momento. Todas minhas intempestivas tentativas de, quase animalescamente, dominá-la como um macho a uma fêmea no cio, foram esquivadas artística e graciosamente. E aqueles corações continuavam à mostra, cada vez mais propositalmente.

Ainda oriçado e ainda sem entender nada, já começando a ter aquela vontade de dar uns tapas que todo cara sabe muito bem do que estou falando, a criaturinha decide ir embora. Junta seus trapinhos e mais que rapidamente se dirige ao carro. Sento no banco do carona naquela masculina esperança final de bonança pós esforço sentimental. Como boa mulher e sabida das coisas que é, claro que ela disse tudo aquilo que eu queria ouvir. De repente ela pergunta se eu lembro da nossa conversa por MSN na noite anterior. Nunca vou entender a memória das mulheres. Encaro aquele sorriso de satisfação à meia luz e lembro vagamente de ela ter falado algo sobre fim de semana livre e planos libidinosos - safadinha - eu certamente fiz alguma piada quanto à decisão sexual final ser iminentemente masculina... e então tudo ficou imensamente claro em meio à semi escuridão dentro do carro parado em frente à minha casa.

Com o decote mais aberto do que nunca na noite de hoje, debruça-se sobre mim, propositalmente encaixando o peito no meu rosto, abre a porta do carona e novamente senta, aprumada, no lugar do motorista, liga o carro e prepara-se para partir, olhando-me com aquele sorriso maroto e vencedor. Desço e, após manobrar ouço-a dizer elevando o tom de voz sobre o som do carro: "viu como não és tu quem decide? Agora segunda-feira!!". E parte, deixando-me à deus dará, conhecendo a origem e verdadeiro significado da expressão "na mão", desejando mais do que nunca ter dado uns tabefes naquele rostinho lindo quando tive a oportunidade, praguejando uma piada infame e mal sucedida. Não entendo porque reclamam tanto dos homens se acham que nos tem nas mãos.

Dia seguinte decidi tomar conta da situação do meu jeito. Ainda que implicado, fingi não tomar conhecimento das implicâncias femininas da minha gostosa. Nada fere mais o ego de uma mulher, absolutamente nada. Quando o esmero sensual beirava o máximo, o que já estava, francamente, impossível de resistir, foi a minha vez de jogar sobre ela minhas melhores cartadas, bom blefador que sou. Terminamos a tarde em minha cama, abraçados, sorridentes, apaixonados e, é claro, nus. Eu muito mais satisfeito que ela, é bem verdade, pois naquele corpo feminino, apesar das orgásticas endorfinas, havia um ego de estrogênio fragilizado. Ferido por não ter cumprido a promessa a si mesma e, principalmente, ter perdido a batalha dos gêneros pela palavra e domínio final da relação. Homem que conhece cada centímetro da sua garota, consegue dela o que quer.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Formatura/Enade/INEP

Há mais de 45 anos a Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pelotas lança seus médicos recém formados na sociedade. A formação compreende seis anos divididos entre lições teóricas e práticas que, juntas, preparam o aluno, com louvor, a exercer a medicina. Fora da sala de aula há toda uma equipe incumbida de organizar as entrelinhas da formação médica da universidade, como matrículas, aprovações, pendências, documentação de notas, registro de alunos, etc. O Colegiado de Curso é a entidade responsável por essas atividades.

A qualidade da formação médica da Universidade é atestada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) através do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes), o qual tem por objetivo aferir o rendimento dos alunos dos cursos de graduação em relação aos conteúdos programáticos, suas habilidades e competências. Essa avaliação é feita atraves do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (ENADE). A última edição do Enade, realizada em 2007, conferiu à Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pelotas, de 1 a 5, nota 4.

A inscrição dos alunos para a prova cabe à instituição de ensino, ao aluno compete apenas comparecer ao local de prova para a realização da mesma. Alunos em débito com o Enade (aqueles que, enquadrando-se nos critérios de obrigatoriedade para a realização da prova, não a realizaram, independentemente do motivo) não estão aptos a receber seu diploma, ainda que tenham concluído seu curso de graduação. Dentre os alunos que devem realizar a prova estão os ingressantes (amostra) e os concluintes (todos). No dia 21 de novembro de 2010 foi realizada a edição de 2010 do Enade, o que significa que todos os formandos em Medicina da Universidade Federal de Pelotas deveriam ter respondido à prova, sob pena do não recebimento do diploma de conclusão do curso.

Entretanto a exatos 81 dias da formatura, oito formandos são chamados para uma reunião de emergência no Colegiado de Curso da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pelotas, pauta "Trâmites Legais para a Formatura sem a Realização da Prova do Enade", motivo: a coordenação geral do Exame Nacional do Desemprenho dos Estudantes não aceitou a inscrição tardia dos oito alunos que, segundo documento oficial redigido e assinado pelo Colegiado de Curso da Faculdade de Medicina, não foram inscritos em tempo hábil devido ao seu não comparecimento à instituição.

Isso significa que oito formando do curso de medicina, há cerca de 2 meses da formatura, recebem a notícia de que não receberão seu diploma de médico até a próxima edição do Enade porque o Colegiado de Curso não os inscreveu para a prova obrigatória. Concomitantemente foram incumbidos de uma responsabilidade (comparecimento ao colegiado para a inscrição) que, como muito claro consta no manual do Enade 2010 disponível a todos para download no site do INEP, pertencia apenas à instituição de ensino. Na tentativa de justificar a grave falha, funcionários alegaram que os referidos alunos não foram encontrados durante seu um ano e meio de estágio obrigatório, realizado nas dependências da universidade, para a adequada inscrição.

O diretor do Colegiado de Curso chegou a propor total auxílio aos alunos afetados, incluindo financeiro, desde que não fossem tomadas ações legais contra a Universidade. Diplomaticamente foi enviado ao Colegiado de Curso um ofício solicitando providências em um prazo de 10 dias, conforme pedido pelo diretor. Ofício este que sequer foi respondido. Resposta que igualmente não foi divulgada quando alguma manifestação por parte do reitor da Universidade foi solicitada em relação ao ocorrido.

Como resultado, os oito formandos, extra-universidade, foram obrigados buscar meios legais para que seu diploma seja garantido no ato da formatura, a realizar-se 17 de dezembro de 2010, com ou sem a realização do exame obrigatório, para que não sejam ainda mais prejudicados por um erro interno e organizacional do seu colegiado de curso. Tal proteção legal, um Mandado de Segurança, segundo a tabela de honorários da OAB/RS (também disponível para download), custa R$6000. Custo que foi arcado pelos próprios formandos.

O pedido na justiça foi para a realização da prova do ENADE e, na impossibilidade desta, a garantia da colação de grau e recebimento do diploma de médico mesmo sem a prova, a princípio, obrigatória. Ambas solicitações deferidas pelo Juíz de direito. Todavia, mesmo com uma ordem judicial solicitando que os alunos fossem inscritos para o ENADE, dia 21 de novembro os oito formandos compareceram ao local de prova portando atestado de matrícula, ordem judicial e a incerteza da realização da prova.

Expostos os fatos e dados, permanece sem resposta, jogadas ao vento as seguintes questões: como um colegiado de curso de uma faculdade tão bem conceituada não efetua a inscrição de oito formandos em uma turma de 36 para uma prova de realização obrigatória para a avaliação da própria instiruição? Como o referido colegiado de curso tem, na falta de outro adjetivo, a cara de pau de tentar colocar nos formandos a responsabilidade por uma falha tão grave? Como um colegiado de curso não tem conhecimento de quem são seus alunos, quais atividades acadêmicas estão frequentando e onde são realizadas essas atividades? Como um colegiado de curso tenta e não consegue localizar seus alunos por um ano e meio? E, talvez a mais intrigante de todas, como um colegiado de curso, perante uma falha de tamanha gravidade, não faz um esforço que possa ser considerado ao menos mínino para eximir seus alunos de uma penalização gerada por uma falha institucional?

Eu, como uma dos oito alunos prejudicados, nutro mais indignação pelo descaso que pelo erro.

Cristine Scattolin Andersen
Formanda em Medicina

domingo, 5 de setembro de 2010

O meu mau humor

Quem não me conhece e lê o meu tuíter pensa que eu sou a pessoa mais mal-humorada do mundo, confirmaram-me dia desses. Aí eu me defendo, pois tem muita gente ao redor do mundo com o humor pior que o meu. Não venço a competição nem na minha cidade. E quem duvida é só vir experimentar uma semana no inverno pelotense. Melhor humorado que eu só vendedor de guarda-chuva e desumidificador de ar. Aliás, em algum outro lugar do mundo além de Pelotas se encontra aplicação para um desumidificador de ar? Só pra saber.

Outra coisa, mau humor matinal merece desconto, né? Aliás, não sei vocês, mas eu desconfio seriamente do caráter de alguém que fica feliz em abandonar os lençóis às 6h da madrugada. Aí como se não bastasse levantar antes do sol, a regra é estar úmido. Ou frio. Ou abafado. Ou chovendo. Ou tudo isso junto, por mais impossível que possa parecer. Somando-se às as intempéries climáticas, a gente ainda sai nesse tempo para pegar um ônibus lotado, sujo, com todas as janelas fechadas, carregando uma mala, um casaco e um guarda-chuva, sendo obrigado a coexistir com gente mal educada. Anormal é quem NÃO está de mau humor, convenhamos. Ao longo da manhã a coisa melhora (ou não).

Depois de tudo isso para chegar onde quer que eu deva ir de manhã, o mínimo que se espera é um pouco de respeito pelo esforço. E ó que eu não me refiro só ao esforço presencial, mas a toda luta intelecto-social para chegar à qualificação de fazer um atendimento quase médico DE GRAÇA. Óbvio que não, o povo xinga, grita, briga, ofende, ameaça, as vezes bate, não toma o remédio, abusa, pede atestado, azucrina para "se encostar". Encarar a enormidade da merda que está esse país, juntamente o povão achando que está ótimo só porque o governo incentiva a vagabundagem e vida fácil com esmola todo mês, e ainda estar de bom humor, só fechando os olhos ou sendo muito (MUITO) hipócrita. Ou burro. Ou fazendo parte do povão.

Deixando um pouco de lado todos intermináveis motivos que tenho para estar de mau humor, é claro que para essa impressão colabora o fato de eu ser reclamona. Sou mesmo. E estou no meu total direito, aliás. Nunca fui de engolir sapo em silêncio. Entretanto a grande diferença entre mim e todo o resto do mundo não é a dose de prolemas, nem o modo como eu os encaro. Também não é a importância que eu dou para coisas pequenas, tampouco o quanto eu expresso meus incontentamentos publicamente. O que faz de mim a maior mal humorada do mundo é que minhas felicidades, sejam as efêmeras ou as nem tanto, guardo-as apenas para mim e interessados. Captou?

Não posto meu contra-cheque no orkut. Não conto meus quilos a menos no tuíter. Não publico fotos do resultado da dieta + academia na internet. Não faço propaganda das performances do meu namorado publicamente. Não me gabo de cada tarde feliz nem cada risada sincera em posts do meu blog. Não exponho meus orgasmos múltiplos na vitrine da minha vida. Não há felicidade compartilhada que não seja correspondida com uma boa dose de inveja. É a velha gorda que senta do teu lado no ônibus lotado. Oprime. Não há como passar despercebida.

Então eu compartilho as trapalhadas, para dar risada de mim mesma. Entupo de porcaria minha timeline, não a cabeça de quem quero bem. Quem me conhece vê os quilos a menos, usufrui do resultado da academia (ui), participa das tardes de alegria e auxilia na sonoridade da risada gostosa. Se me acham mal humorada? Pouco importa. Pouco importa porque a minha felicidade eu divido só com quem importa. Bem humorada ou não.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

A chave do meu mundo

Seja bem vindo. É, bem vindo ao meu mundo. Ao meu complicado, conturbado, enrolado e, só pra não manter fraca rima, estarrecido mundo. As portas estão abertas para ti. As janelas também. E tudo o mais que possa estar aberto em um mundo. E também no que tem dentro do mundo. Se bem que toda essa abertura pode ser perigosa, toda aquela história do boi e da boiada, sabe? Então te dou a chave. Isso aí, tens a partir de agora a chave de todas as aberturas do meu mundo. Sem malícia. Ou com, por que não?

Mas e se tu não souberes o que sente com essa chave na mão? Tudo bem, no fim das contas ninguém sabe. Eu também não sei. Só o que eu sei é que o meu mundo pareceu ter um pouco mais de sentido depois que tu apareceste nele. Sentido na sinonímia de porquê, não de direção. É, porque direção eu acho que nenhum mundo tem. Ou pelo menos não os mundos que eu já conheci. Pois então, só pega a porcaria dessa chave e vamos continuar de onde paramos para essa explicação. Ali estávamos nós, tão nus, eu tão tua e tu tão meu...

Peraí. Ainda tem aqui uma coisinha que está matutando. E se eu me arrepender? E se tu te cansares? E se o passado não parar nunca de nos ligar? E se minhas crises de chatisse ficarem cada vez mais frequentes e mais insuportáveis? E se nos saturarmos das nossas noites de sábado? E se eu chorar ao telefone na madrugada em explosões de insegurança infantil? E se passar a existir uma distância física? E se essa se tornar também emocional? E se o amor acabar? E se enjoarmos um do outro? E se meus milhares de "e se..." se tornarem um abismo de infinitas dúvidas entre nós?

E se nada. Nada mesmo. Porque é nessa hora que tu dá uma risadinha, puxa-me para um abraço forte e beija a minha testa, dizendo que eu não tenho motivos para me preocupar. Quando tu falas até faz parecer que de fato não tenho. Não só assim mas também quando paras o carro na frente da minha casa e, na despedida, diz que "me gosta". Quando me pega desprevenida naquele abraço apertado. Quando liga pra não falar nada entre uma aula e outra. Quando não me deixa dormir no domingo de manhã. Ou simplesmente quando oferece o peito como travesseiro e fica fazendo círculos no meu cabelo. E se nada. E se o agora durar para sempre? O depois a gente vê.

Só que apesar de tudo isso eu não quero sofrer de novo. Sei lá, sabe? Pelo menos não daquele modo doentio e dolorido. Se for pra sofrer quero que seja com o sentimento de que está valendo a pena. É, porque sofrer sabendo que tem um porquê não é castigo, é lição. Mais um degrau pro crescimento pessoal. Entende? Então seja bem vindo e não esquece de me mostrar diariamente porque eu escolhi a ti pra entregar essa chave. Quem sabe teus olhos intermitentemente verdes, ou tuas pintas espalhadas pelo corpo. Ou o cabelo ora loiro ao sol, totalmente despenteado. Ou nada disso. Vai ver são só os feromônios agindo, embora eu não goste muito de pensar em nós apenas como reações químicas. Ainda que seja uma química orgástica.

Não dormiu ainda? Então espera que eu ainda não acabei. Daqui seis meses, um ano, dez anos, certamentes os dias 23 ainda serão dias especiais. Vamos andar de mãos dadas? "Eu sou só teu e tu és só minha?". Que bom que eu bebi e falei que não queria que fosse só aquilo. Vem cá e deixa eu admirar a fruta cor dos teus olhos nesse dia nublado. Agora sim podemos continuar de onde paramos. Bem vindo. Sim, sou tua.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Existência Ordinária

Não entendo o que leva alguém a dizer, talvez verdadeiramente acreditar, que vive de extremos, que não gosta do morno. Oito ou 80, já diria o clichê. Não consigo captar a essência de alguém que vive à beira do que quer que seja. Alguém que prefere a quase queda da curva de Gauss. Não empatizo com quem prefere estar mais de 2,5 desvio padrão para lá.

Qual o problema com o meio termo? Com o equilibrio, de fato? A temperatura que ao paladar apetece, nem tão quente a ponto de queimat, nem tão fria que venha a anestesiar. A fortuna apenas suficiente, nem tão pequena que não possa satisfazer ao consumismo, nem tão grande a ponto de cegar e comandar. O peso eutrófico, nem obeso, nem desnutrido. Altura mediana, nem anão, nem gigante. Apenas dentro do normal, nem muito pra lá nem muito pra cá.

Talvez o problema seja comigo, afinal. Eu, aberta e orgulhosamente, gosto do meio termo, do morno. As vezes até do meio do caminho. Gosto da tranquilidade de ser ser ordinária. Sublimo a oportunidade de ser comum. Não vivo intensamente cada minuto, mas trabalho muito em alguns para que, naqueles destinados a serem intensos, eu tenha saúde, disposição, companhia e, obviamente, dinheiro para torná-los o que são destinados a ser. Não sei estar no limite. Não aprendi a conviver com extremos.

Na minha vida desconfortam-me coisas arrebatadoras. Ventanias, temporais, insolações e nevascas. Amizades e amores. Perto de mim eu quero dias de sol pacialmente nublados. Quero a leve brisa do outono, ou o discreto vento da primavera. Quero amigos comuns, com seus defeitos e qualidades sem juras eternas de dedicação. Quero meu leite morno. Quero uma rotina ordinária. Quero amores tranquilos.

Quero amores com tranquilidade de amores, sem avassaladoras paixões. Não preciso que as borboletas saltem no estôago a cada encontro. Quero viver a serenidade de estar lado a lado em silêncio. Quero completar-me na conversa, seja ela na cama ou fora dela. Preciso que o pé quente e nu em contato com o meu, vestido e gélido, seja o nosso elo enquanto cada um tem à frente seus afazeres individuais. Não quero estar unida apenas pelo genital, mas também pelo olho.

Não sei ser intensa. Não nasci pro tudo ou nada. Fui criada no mais ou menos. E se fosse um número, provavelmente estaria pela volta do 40. Quero pra mim a calmaria do lago. A brisa primaveril. A rotina ortodoxa. A segurança do amor sereno. A tranquilidade de uma existência ordinária.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Dia dos Pais

Ainda ontem eu estava lembrando da carta que escrevi para ser entregue a mim mesmo um anó após. Sete meses desse um ano já se passaram. E nesse clima nostálgico de quem está vendo a vida passar meio sem saber de onde ela vem nem pra onde ela vai, comecei a relembrar das coisas que tornaram meu ano, minha história, minha vida, o que hoje eles são.

Seis meses se passaram desde o dia que cumpri a prova prática da autoescola e, orgulhosamente (ou talvez nem tanto) tornei-me legalmente uma motorista. O que me lembra todo o estresse pré prova baseado na intensa necessidade de passar na dita cuja. Não que eu não fosse ter outras chances, porém naquele instante pouco menos de duas semanas haviam passado desde que minha família encontrou-me em frente ao meu prédio e meu padrasto, orgulhoso, entregou-me os documentos do carro que se tornaria meu em alguns dias, mediante carteira de habilitação, é claro. Dirigi de volta para casa naquele revellion, para desespero dos meus pais.

Pensando em desespero, lembro das (nem tão) poucas vezes que, ainda morando em casa, retornei pós balada passadas 5h da manhã. Pé por pé, sobriamente me dirigia ao quarto, enquanto nem tão pé por pé assim meu padrasto fingia ter ido ao banheiro e retornava ao aconchego do leito. Aquela que me gerou invarialvelmente roncava nessa hora. Fingindo ter sido acordada, dia seguinte indagva o porquê de um retorno tão tarde. "Cedo da manhã", sempre respondi, nada criativa.

Lembrando de outros fingimentos, também me vem à mente o quanto não conseguiu disfarçar o orgulho por eu ter passado no vestibular aquele que não participou da minha produção, todavia invariavelmente estava ali, ao alcance dos olhos, durante o aperfeiçoamento. Muito mais que minha mãe, é bem verdade, ainda que nenhum dos dois admita. Algum dia, quem sabe.

E de lembrança em lembrança, minha vida quase inteira poderia passar diante dos meus olhos deixando apenas uma constatação óbvia: estou em leito de morte. Mentira. Nem sempre o óbvio é verdade, pelo menos assim espero. A segunda constatação óbvia é que pai é quem cria. Sem piadas nesse momento, por favor, apesar de todas aquelas que a frase traz à mente de qualquer vivente.

Portanto, neste dia dos pais, há apenas uma pessoa a quem eu devo agradecimento, respeito, carinho e dedicação: o marido da minha mãe, pai dos meus irmãos, meu padrasto. Dele não herdei nome nem olhos, porém foi dele que vieram todas as preocupações e ações que fizeram com que eu o escolhesse para, junto a minha mãe, subir ao palco e entregar-me meu diploma em meados de dezembro. Porque é graças a ele que, hoje, sou o que sou e estou onde estou. Não que isso seja uma coisa necessáriamente boa, mas todo mundo entendeu.

Feliz dia dos pais, verdadeiros e substitutos.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Dessas facilidades e dificuldades

Mimimi de mulherzinha é um troço que não tem fim, até porque eu, na condição de mulher, tenho o mais absoluto direito de reclamar daquilo que eu bem entender por tanto tempo e tantas vezes quanto eu quiser. Ser mulher tem dessas facilidades.

Pensando retrospectivamente, desde pequena minha mãe costumava falar do meu mau humor, sempre enfatizando, como só uma mãe pode fazer, que ela só conseguia aturar minhas explosões de raiva com o mundo porque é mãe. Ser mãe tem dessas dificuldades.

Eu, sinceramente, acho que ela não fazia mais que a obrigação assumida quando decidiu permitir que eu viesse ao mundo. Digo isso porque parte do meu mau humor certamente deriva da porcaria do meu intestino que, vez ou outra, teima em me sabotar e fazer uma grevezinha, dessas só pra me deixar esperta e querendo comer mamão. Isso só acontece porque ela insistiu para que eu controlasse meus esfíncteres antes de ter capacidade neurológica pra isso (sou atrasadinha, fazer o que?), tornando-me hoje uma pessoa que funciona à base de prender as coisas dentro de si. Colocar a culpa na mãe é o que há de moderno. Ser filha tem dessas facilidades.

Assim sendo, tenho dificuldade pra fazer cocô, não gosto de fazer xixi, nunca vão me ver colocando o dedo na goela pra vomitar depois daquela extravagância alimentar, a cada vômito da bebedeira é uma lágrima de desgosto pensando que nunca mais farei isso e extrair uma confissão sincera, verdadeira e direta dos meus sentimentos é quase um nascimento, com trabalho de parto e tudo. Ser Cristine tem dessas dificuldades.

Então fico muito grata de ter a liberdade de reclamar do que eu bem entender, incansavelmente, até porque tem coisas de que eu NUNCA vou cansar de reclamar, e ser mulher é uma delas. E, se parar pra analisar a fundo, bem no fundinho, eu nem sou uma criatura tão reclamona e mau humorada assim, o mundo é que simplesmente parece que não vai com a minha cara e cisma em tornar a minha existência o mais infernal possível. Colocar a culpa no mundo não é uma coisa tão moderna assim. Ser humana tem dessas facilidades.

Mas né, apesar de eu não acreditar que alguém que me faça sangrar todo mês goste de mim, eu posso me considerar uma pessoa feliz e realizada, só acho que felicidade não precisa ser esfregada na cara dos outros nem exposta na vitrine. Dá, perfeitamente, para ser discreta e gritada silenciosamente entre quatro paredes. Reclamo pra liberar dramaticamente as minhas escórias, afinal o drama faz parte da minha vida e sem ele eu não seria eu, feliz e reclamona do jeito que sou. Ser histriônica dessas dificuldades.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Ah, se tu soubesse...

Hoje já acordei cansada da dor que dói, da mulher que sofre, da criança que chora. Já levantei farta do amor escondido, da paixão fatigável, do desejo duvidoso, do pessimismo irrepreensível. Eu ando tão cansada de vislumbrar o sol por entre as grades da prisão que eu mesma construí, juntando as pedras que tanto atrapalham meu caminho, escrava açoitada da minha própria identidade. E daqui desse canto frio e úmido tão assustadoramente (m)eu o sol nasce quadrado, escondendo parcialmente as olheiras oriundas de sentimentos que inutilmente tento enforcar, abortar, chutar para baixo do tapete todos os dias.

Eu não sei ser simpática, nem conquistar o bem querer na primeira olhada. Eu não sei conquistar ou agradar um homem, tampouco sei fazê-lo voltar, depois de já não ter conseguido fazer com que não quisesse ir. Eu não sei distribuir sorrisos amarelos e fingir que está tudo bem quando na verdade não está, não sei sufocar a mágoa, não sei maquiar a dor. Muitas vezes também não sei matar no osso do peito a vontade de mandar lá pr'aquele lugar todas essas pessoas com suas mentiras e manipulações e erros e má vontades.

Ah, se tu soubesse que eu não sei viver sem trilha sonora. Se tu soubesse o quanto eu sou egoísta. Se tu soubesse, meu moreno, o quanto eu mudei por ti e pra ti, e que mesmo assim eu ainda sou uma garota problema. Se tu soubesse que meus gritos a todos os ventos de como és sortudo por me ter nada mais são que uma camuflagem para minha insegurança infantil. Se tu soubesse a importância que tem sono nos teus braços, o valor do sorvete sob as cobertas no frio quase inverno. Se tu soubesse como eu gosto do teu cabelo, teu rosto que chamas de torto, teus lábios masculinos desprovidos de carne, cada uma das tuas imperfeitas perfeições. Se tu soubesse o quanto dói teu pessimismo e o quanto eu me esmero, ainda que pouco aparente, para dar o meu melhor.

Sabe, decorei as paredes da minha cela com kriptonita, mas também aprendi a nadar no meu próprio lago de lágrimas. E é assim que eu levanto todos os dias de manhã - as vezes à tarde, é bem verdade - , sendo uma epifania do que poderia ter sido se fosse diferente algo que eu não sei o que é. Mas faça-me um favor, um em especial, dentre todos os que ainda pedirei até o resto dos nossos dias, defendas sempre esse amor que a maioria das pessoas diz não existir apenas para ter sobre o que lamentar. Porque se meu ponto de partida não fosse crer que é real e possível, não teria dado-me o luxo de entrar na competição. Dez anos separam-nos da nossa promessa. Prometa fazer o teu melhor para cumpri-la. Prometo o mesmo.

sábado, 5 de junho de 2010

Se não matou, aprendeu a viver.

A gente só conhece profundamente a índole das pessoas que por certo período conviveram conosco algum tempo depois que elas não convivem mais. Melhor ainda nos casos em que a separação foi regada com um pouquinho de animosidade. As jovens cujo computador do ex namorado foi invadido por algum vírus e, por consequência, tiveram suas fotos íntimas expostas na rede mundial não me deixam mentir.

Além destas, várias outras não figuram no catálogo das bundas interneticamente conhecidas apenas por nunca terem permitido o registro de momentos de intimidade. Ninguém além da Paris Hilton teve saldo positivo nesse tipo de marketing, de modo que ninguém além da loirosa permitiria fotos e filmagens se tivesse o mínimo de desconfiança que sua celulitosa bundinha pudesse vir a figurar em sites de pornô amador.

Semelhantemente, ninguém emprestaria dinheiro para o cunhado caloteiro se, logo de antemão, soubesse que o bastardo é, de fato, caloteiro. E se também soubesse que ele usaria o teu dinheiro para comprar a passagem só de ida para a Finlândia, onde pretende morar com o verdadeiro grande amor da última semana, a prima gostosa por quem ele trocou a tua irmã? Irmã, esta, que foi desvirginada, engravidada e trocada pelo cunhado caloteiro. Eu ia querer meu dinheiro de volta.

E se, só por um acaso, tu soubesse lá no começo da paixão que o cara por quem tu dedicaste quatro anos da tua juventude iria começar a te tratar como prostituta de praça por sms de celular? Quero conferir o resultado da academia, aí ja vamos comprar uns presentinhos pra ti. Parece que a mãe da filha dele, a qual ainda nem completou dois meses de parida, não está conseguindo satisfazer toda a libido do paizão. Aceitarias de bom grado ter sido a dona das guampas dois anos atrás? Eu ia agradecer que o chapéu de corna trocou de cabeça.

O ruim é que agora não da mesmo pra saber se o namorado da tua irmã vai mesmo continuar a ser o cunhado dos sonhos que vai desencalhar a chata da tua vida, muito menos se o bofe que ta te comendo faceiríssimo todo fim de semana não vai ser o próximo a tentar te comer em troca de presente barato enquanto a namorada amamenta a cria. Infelizmente não da. Entretanto o que não da mesmo é pra viver com essas possibilidades todas em mente, tolhendo as oportunidades que a vida da.

Enxuga as lágrimas da irmã, da risada do sms e segue com a tua vida. Vale até tirar as tais fotos pelada, se assim for o desejo no momento. Não faltando as precauções necessárias à segurança do evento, a festa da vida tem mais é que ser curtida. E, cá entre nós, parte da graça esta nas surpresas que aos poucos nos revelam, tanto as boas como as ruins. Dando-me o direito de ser bem clichê, decepção não mata, ensina a viver.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Barba, cabelo, bigode e até gosto musical.

Não importa muito que tipo de namorada tu foste, nem quanto tempo durou o relacionamento, toda ex-namorada é igual. As apaixonadas, as amantes, as mandonas, as ciumentas, as recalcadas, as desligadas e também as desinteressadas após um período de relacionamento, seja de um mês ou dez anos, inexoravelmente vão propiciar a si mesmas uma dia princesa. É como se todas fossem para o programa da Marcia Goldschmit e ao xingar o ex de safado, cachorro e bastardo ganhassem de brinde uma transformação. Barba, cabelo e bigode.

Tem quem entre para a academia, pra ioga e pro pilates. Se bobear até contraram um personal. Na balança constam uns 5 quilos a menos. No guarda roupa muitos sapatos, bolsas e roupas a mais. Há até quem mude de estilo, abandonam o coturno, aderem às madeixas loiras, alisam os crespos, encrespam os lisos, abusam dos decotes, aderem às estampas, optam pelo preto, ressucitam o salto alto, reintegram o bico fino. Viram clientes de carteirinha de botecos, tornam-se fãs de cerveja sem colarinho. Há até quem dê uma variada no gosto musical e, por que não, reintere-se avidamente das notícias do futebol mundial.

Ex-namorada é uma pessoa inteiramente nova, com uma vida inteiramente modificada e uma aparência inteiramente realçada. Beirando o irreconhecível, quiçá. É uma enorme energia despreendida, a qual vem sabe-se la de onde e alimenta-se sabe-se la de que, tudo em prol da tal volta por cima que tanto falam por aí. O que provavelmente pouca gente parou para pensar é que, se corretamente canalizada, essa energia toda que só agora veio à tona poderia ter dado um rumo completamente diferente à relação falida que tanto sofrimento e, por consequencia, mudança gerou.

Assistir ao jogo de futebol quarta de noite? Só levou a cara feia. Boteco com os amigos dele em um fim de tarde? Minutos contados e bastante falta de elegância. Cerveja? Eca, mijo de cavalo, quero é ir pra casa logo. Academia, então? O marasmo televisivo no sofá é mais convidativo, mulher tem que ter o que apertar, e ele nem sabe diferenciar estria de celuite, mesmo. Saia curta, decote ousado, maquiagem realçada? Não tem necessidade a essa altura da relação. Dormir melecada, sexo matinal, boquete só pra agradar? Nem por decreto presidencial. Vida sexual ativa é artigo de luxo.

E aquela pitada de boa vontade mínima necessária pra manter acesa a chama da relação foi parar lá no fundo do baú, juntamente com o romantismo e motivação pela diária batalha de fazer dar certo. Namoro nenhum acha seu rumo no piloto automático, e bússola pra convivência só ajuda se as partes se derem, ao menos, o trabalho de procurar seu norte conjunto. E de herança fica apenas a amarga a sensação de que o que faltou foi nada mais que energia e boa vontade. Energia que sempre existiu, porém deu vazão apenas agora. Mudar tanto tão tarde vale a pena tanto assim?

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Todos os Dias

Sabe aqueles dias que a gente acorda gorda? Caso tu tenhas um pinto balançando entre as pernas sejas homem, até acredito que não tenhas a menor idéia do que estou falando, caso contrário, imagina um desses dias, o qual certamente faz parte da tua rotina, e vem chorar as mágoas junto comigo, pelo menos um pouquinho. Solidariedade. To precisando.

Vai dizer, tem dias que a gente acorda de uma maneira tal de obesidade que nem parece a mesma que foi dormir. Mágica? Castigo? Ou uma simples consequência da comilança do dia (ou semana) anterior. Aí a gente coloca uma roupa mais de gorda larguinha e toca a vida. O problema é quando a gente acorda e, não apenas o espelho, mas também aquela maravilhosa e preferida calça jeans nos encara, com aquele olhar acusador que só uma calça consegue ter e diz: "ha ha, palhaça, tu ta gorda". Todos os dias. Aí que ta o problema, no 'todos os dias'.

Assim sendo, gostaria muito que o indivíduo que teve o infeliz pensamento de que seria bacana armazenar energia para períodos posteriores de falta alimentar fosse tomar no seu respectivo olho lá daquele lugar, todo mundo sabe bem qual. Todos os dias. Juntamente com todas as pessoas geneticamente favorecidas que não são dotadas dessa capacidade de armazenamento calórico. Isso porque eu convivo muito bem com a obesidade intermitente, todavia a definitiva (que reina por aqui) faz desse mundo um lugar muito injusto.

Recalque, inveja, obesidade e ofensa gratuita, a gente vê por aqui.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Esmaltes

Eu, ser pensante que sou, preciso ter conhecimento e admitir minhas características, defeituosas ou não. Uma delas é que eu sou simplesmente compulsiva por esmaltes.Rosas, roxos, vermelhos, laranjas, azuis, verdes... ta, mentira, exagerei. Minha coleção abrage desde o rosa mais virgem até o vermelho mais puta. Quanto mais berrante, melhor.

Eis minha coleção:


Como podem notar, a preferência é para rosas, roxos e vermelhos, sabem como é, chamativos mas tradicionais. Essa moda de verde, amarelo e azul não foi bem aceita por aqui, e, aliás, nem ano de copa vai me convencer. Entretanto se o Brasil for para a final, fica a promessa pintura de unha decorativa para a torcida. Quanto ao laranja, até tentei, confesso, entretanto minha cútis desbotada não combinou em nada com a cor da moda. Paciência.

A verdada é que não existe a menor necessidade de eu ter todos esses tubinhos de meleca colorida, todavia eu sou completamente incapaz de entrar em uma farmácia (ou coisa que o valha) e não sair dela com pelo menos 2 frascos de esmalte obrigatoriamente diferentes (ainda que parecidos) dos que já possuo. Escolher qual será estreado primeiro é que é o dilema. O que me lembra que eu queria que todos os meus dilemas fossem como são os de 'fim de semana'.

Registro que eu mesma faço minhas unhas, incluindo pé, já desperdiço grana com tanta coisa banal, então economizo e ainda tenho horas de diversão brincando de fazer arte. No fim é só prática, mesmo. Ta que da última vem eu tirei um bife de quase cada dedo, mas são ossos do ofício. Lixo-as quadradas, meio que auto-punição porque arranham mais e quebram com mais facilidade. Feito isso, é hora de escolher a cobertura.

Dentre todos meus preferidos são estes:


Revelação, para mim, foram os esmaltes da Panvel. Preconceituosamente achei que seriam meio vagabundinhos e comprei só porque gostei da cor. Aí o troço se revela a melhor marca que já usei, não que meu "n" seja muito grande, é claro. Impala e Risque andam juntos e, pobre Colorama, que por tanto tempo liderou o mercado, perde muito em qualidade para os demais. Mas, gosto é gosto né.

Selecionada a cor, principalmente quando a escolha é um esmalte escuro, a base protetora é artigo indispensável. Lambuzo os dedos, esquizofrenicamente, com a dita cuja, facilita na hora de tirar os borrados dos cantos. Passo, então, a primeira mão do esmalte escolhido, sem muito cuidado com cobertura perfeita ou borrados. Deixo dar uma secada e passo a segunda mão, cuidando bastante para deixar bem uniforme, depois retiro os excessos mais grosseiros com um palitinho (desses que se compra por 5 centavos nas lojas de cosmético). Passo, então, o milagroso óleo secante, que não faz secar mais rápido porcaria nenhuma, mas dá uma proteçãozinha contra acidentes enquanto o esmalte não seca por si só.

Já com o óleo, enrolo um pedacinho de algodão na ponto do palito, deixando bem fininho, mergulho na acetona e me delicio despintando os dedos. Chato é quando no dedo tem o espaço de onde foi tirado um bife, felizmente o que não mata fortalece, dizem. Depois, principalmente para aquelas cores mais apagadinhas ou quando o esmalte é novo e, portanto, mais aguado, uma cobertura extra-brilho dá outra cara ao trabalho:


Terminada a saga, é só ter um pouquinho de paciência e deixar as mãos mais ou menos quietas pra não estragar a obra de arte. E falando em estragar, fico muito chateada quando alguém reclama que as unhas estão durando 3 dias, como se isso fosse muito pouco, pois comigo o dia número 3 já é hora de dar retoques. E olha que eu nem faço serviço manual que justifique a pouca duração.

Hoje, quarta-feira e primeiro dia oficial de férias de quem vos escreve, aproveitei para, futilmente, é claro, comprar esmaltes novos e divertir-me em uma tarde de corta-lixa-pinta. Inovando nas cores, escolhi para hoje "Arranha Céu", da Colorama:

Um cinzinha pra lá de sem graça, diga-se de passagem, variando um pouco dos tão frequentes rosas que carrego diariamente nas unhas. Compartilhadas minhas preferências e meus segredos (que de secretos não tem nada) sobre como faço minhas próprias unhas, preciso provrar que eu não sou só futilidade, mas também muito retardamento:


Viu como é um cinza sem graça?

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Família, né.

A vida nos faz passar por determinadas provações, meique pra fazer a gente provar que é merecedor do tal sopro da vida. Eu, particularmente, acho que esse tal de deus aí, se é que existe, é um cara muito sacana, porque né, vamos combinar, só por ser parido neste mundo a gente já merecia um bônus por manutenção de saúde mental. Mas não, alguém teve a brilhante idéia de considerar que viver nesse mundinho de merda é uma dádiva, aí de tempos em tempos a gente tem que provar que merece seguir pagando o resto dos pecados por aqui. Do paraíso é que eu tenho medo.

Sem sombra de dúvida, mudança é uma dessas provações a que, sacanamente, somos submetidos. Claro que tem muito penitente aí que curte auto-flagelação, mas alôu mundo, não é o meu caso. Eu tava bem quietinha no meu canto, cheia de pêlos do meu cão, curtindo felicíssima uma internet de merda e uma TV a cabo pra lá de meia boca, sozinha, no centro da cidade. Aí minha mãe decide que meu irmão caçula vai co-habitar o mesmo ambiente que eu. Não satisfeita, decide que essa será uma alternativa permanente e parte em busca de um apartamento maior.

E agora, meus caros, cá estou eu, morando longe do centro, quase do lado da casa da minha "step-vó", com meus dois, é, DOIS irmãos divindo o quarto ao lado (porque habitar com um só não foi provação suficiente, né vida?), sem tv a cabo (porque é óbvio que a net ia complicar a minha vida), sem internet (porque também é obvio que a instalação preferencial seria pra quem precisa do auxílio da internet para a punheta diária) e, pasmem, sem meu cachorro, porque, né, fizeram votação com peso igual de voto pra todo mundo.

Aí quando eu digo pra lavarem a porra da louça que sujaram, ou não deixarem cuecas espalhadas pela casa, ou ainda não deixar o chão do banheiro encharcado depois do banho, eu que sou a chata mal humorada. E isso que eu nem to implicando muito com os banhos que demoram horas, porque, né, sou uma irmã legal e quero mais que se aliviem, na esperança que com isso aliviem é a mim. Mas né, cá entre nós, disputa pelo banheiro logo de manhã acaba com qualquer resquício de bom humor que possa ter acordado comigo.

Então, minha gente, TPM à parte, a vida ta colocando em xeque minha sanidade mental uma vez mais, mas né, não sou de ferro. Então no caso de dia desses eu ser encontrada na rua, pelada, suja e falando coisas sem sentido, lembrem que eu sou 'SUS Plus', ok? Na real eu me apego mesmo é no pensamento de que é temporário, mais 7 meses de martírio e então a doce redenção da formatura. E a partir desse dia, to pra te dizer, família só na visita anual de Ano Novo e OLHE LÁ!!! Sabem como é, né, eu amo mas não convivo. Viver com a família faz mal pros nervos.

terça-feira, 27 de abril de 2010

C&A

Venho por meio desta registrar publicamente minha indignação quanto ao serviço oferecido ao consumidor pela empresa representada pelas lojas C&A, precisamente a filial Pelotas.

Meados no ano de 2009, maio, talvez, sucumbi aos impulsos consumistas femininos e contraí uma dívida com a referida loja, a qual foi, obviamente, parcelada em suaves prestações. Maravilhas dos cartões de lojas. Atualizei o endereço para envio de fatura, guardei a nota fiscal e de lá saía uma saltitante eu, feliz proprietária do creio eu ser um casaco novo, se não me falha a memória.

Mês seguinte não recebi a fatura pelo correio. Compareci à loja, reatualizei o endereço, fingi acreditar em alguns arguentos culpando o correio, paguei a primeira parcela com boleto lançado pelo própro caixa da loja.

Próximo mês... mesma coisa.

No mês que deveria ser paga a terceira parcela permaneci sem receber a fatura pelo correio. Compareci novamente à referida loja, novamente atualizei o endereço, novamente vi o saco ser lançado nas costas dos correios, novamente paguei a parcela manualmente. Três meses depois da compra certamente eu já não lembrava mais em quantas prestações a dívida havia sido parcelada, portanto me mantive informada nesses aspectos com a atendente, já que o correio cismava em TODO MÊS extraviar minha fatura.

E essa foi a saga até que, em agosto de 2009, como consta na nota fiscal que, em um lapso de sanidade, guardei, a jovem excessivamente maquiada informou-me que havia sido paga a última parcela da compra realizada meses antes. Lá saía uma saltitante eu com as dívidas quitadas.

Oito meses depois, já endividada novamente devido a diversas outras falhas de repressão do impulso consumista, minha mãe liga avisando que havia chegado uma correspondência em meu nome no endereço antigo (é, aquele que foi no mínimo 3 vez atualizado no cadastro da loja), informando que, devido a um pagamento em aberto com a C&A, eu estava sendo inserida no Serviço de Proteção ao Crédito (SPC).

Uma vez mais compareci às dependências da loja, informei-me do débito, negociei o saldo, paguei a dívida. E, obviamente, quanto ao endereço, mandei a atendente lá pr'aquele lugar e cancelei meus dois cartões da C&A. Falta de competência no serviço prestado tem limite e paciência não está na lista das minhas virtudes.

Agredecida pela atenção, registrada minha indignação e ratificada minha promessa de JAMAIS comprar alguma coisa na C&A de novo, deixo a pergunta: se sou eu que demonstro tamanho descaso com meus 'clientes' e trabalho com tamanha incompetência semelhantemente, qual será o tamanho do problema que acarretará para mim, como profissional? Ou ainda para meus 'clientes'? Certamente muito mais que um nome no SPC e a perda de um freguês.

Responsabilidade deveria ser mera questão de índole, não de cobrança.

Grata.

sábado, 27 de março de 2010

Friedrich Nietzshe

"As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as próprias mentiras".

terça-feira, 9 de março de 2010

A carta que ela não enviou

Como eu poderia saber que, assim de repente, as coisas tomariam o rumo que tomaram? Como eu poderia imaginar que hoje estaríamos assim, por um instante parados no tempo, equilibrando-nos sem chão sob nossos pés, vislumbrando um horizonte coberto pelas nuvens da incerteza? Como poderia eu saber?

Quando te conheci mal te vi, pouco olhei, nada enxerguei. Talvez não passasse de apenas mais um, ou um qualquer. E aos poucos, devagarinho, camulflado, quase como quem não quer nada, passaste a mostrar-me o que provavelmente eu nao devesse ver, fazendo-me sentir o que certamente nao poderia, desejar o talvez inalcançável.

Justamente eu, tão até então incapaz, logo tu, tão até então inapto. Quão grandes são as ironias da vida, e digo 'vida', bem sabes tu, porque não acredito que haja um destino por tras de nós. Muito embora me faltem palavras para explicar, se não destino, por que justo agora? Por que não antes? Por que não nunca mais?

Talvez fôssemos, de fato, mais felizes vivendo na ignorância de jamais termos sabido um do outro. Entretanto não teríamos nós tido que conviver até o fim dos nossos dias com a pressão da incerteza? Com o peso da sensação falsamente platônica? E até com o arrependimento de algo que poderia ter sido e não apenas não foi, mas sequer passou pelo quase?

Não que eu tenha por positivos os 'quases' da minha vida, sejam os quase amores ou as quase dores, quase sucessos ou quase fracassos. Também não te classifico, ainda, como um quase a mais na minha biografia. Definindo 'quases', nada mais são que algo que poderia ter sido e não foi, embora tentado, ainda que lutado, mais que desejado. Mais que um fracaso, um quase sucesso é resultado de uma luta, ainda que mal sucedida, substituindo uma covarde fuga.

Quem poderia dizer que hoje eu estaria assim, a princípio tão descrente e desiludida, atirada, ainda que contra a vontade, em um mar de desejo, desespero, quiçá desilusão. Sei bem que minha dificuldade com a admissão de certas verdades em nada representa uma novidade para ti, então não estranhes por aqui encontrar as palavras que eu talvez jamais conseguisse proferir mediante fonemas. Admito que, por mais que meus instintos todos gritem a plenos pulmões para fugir, a dor do fracasso, em mim, fere mais que a agressão de um quase sucesso.

Então, novamente não estranhes, nada prometerei, pois como também sabes não sou de promessas ou juras, sou de ações. Talvez por isso aqueles que parcamente me conhecem tenham-me por personificação da instabilidade. Nem de longe paira em mim uma personalidade instável, muito pelo contrário, devo afirmar. O que difere em mim são as decisões, pois de posse de uma eu corro, luto, busco o que quero, não me contento com o que parcialmente me agrada. Não sei viver de partes, vivo por inteiro. E é aí que aqueles que não me conhecem pecam em sua análise, não vêem as motivações das minhas aparentes instabilidades. Agora tens, como poucos, a chance de conhecer minhas mais profundas motivações.

Não nego que tenho medo, mais de uma vez já viste-me fraquejar, e é isso que faz de mim humana, perfeita em meio a toda a minha imperfeição. E é frente a superação de um medo que escrevo, uno palavras na talvez fracassada tentativa de expor tudo o que se passa aqui dentro, meio camuflado, talvez bagunçado em meio a nossa confusão atual. Se tens dúvidas, também as tenho eu, se tens medo, garanto que também os possuo. Todavia se tens ansiedade, aqui também a tenho, se tens paixão, não nego aqui a presença dela, se tens desejo de mudar, hipócrita seria eu se negasse o intenso impulso de jogar, lutar, ir até as últimas consequências.

Aonde chegaremos? Tal qual não sabia antes, permaneço sem saber agora. Sei apenas que, contariando minha autoproteção, onde quer que seja o fim, irei ao encontro deste, esteja onde estiver. Se valerá a pena tudo isso? Apenas o tempo tem a resposta, sei apenas que uma quase vitória já fará de mim vitoriosa, apenas por ter permitido-me ir contra a correnteza e lutar, sabendo bem onde quero estar. Sem promessas vazias, em meio a toda a infinidade de coisas que, sabemos nós muito bem, não posso imediatamente oferecer, apenas uma tenho a necessidade de que tenhas certeza de que sempre a ti dedicarei, sinceridade. O resto seriam apenas promessas vazias.

Aqui me despeço, deixando um grande beijo e o lamento profundo de que, pelo menos a princípio, as coisas não possam ser diferentes. Entretanto ambos sabemos que a vida é longa demais para qualquer coisa ser definitiva e, exatamente do modo que períodos atras não sabíamos como estaríamos hoje, agora também não sabemos como estaremos períodos à frente. Nosso destino quem faz somos nós, levando a vida, a qual é tão fácil quando apenas não temos medo de viver.

Eu te adoro. Sabes muito bem o que isso significa para mim.