Não lembro se eu já comentei (publicamente) sobre o gostosão da academia que presenciei tirando tatu do nariz. A bem da verdade, comumente tuíto inutilidades do meu dia e, feliz ou infelizmente, meus momentos de malhação fornecerão inestimável material para tuitadas inúteis até o final dos meus dias de internet. Entretanto, para a (in)felicidade dos meus folowers/leitores, sou uma aspirante a escritora tuiteira um tanto quanto sem tempo para tanta inutilidade (pois imaginem se a dedicação literária fosse exclusiva), logo, não devo ter comentado nada a esse respeito, de fato. Muito embora, como dedicada aspirante a escritora que sou, acontecimentos banais do meu dia a dia quase sempre despertam particular interesse pela possibilidade de se tornarem material para futuras divagações pseudoliterárias. O que minha mente limitada não foi capaz de imaginar, a princípio, é que um colega de malhação limpando o salão pudesse encaixar-se nessa categoria.
Em fim, há certo tempo, alguns meses, talvez, estava lá eu, suada, fedida e esbaforida, naquele misto de desânimo e torpor entre uma série e outra da musculação. Olhar perdido ao maior horizonte que as paredes mofadas permitiam em busca de algum estímulo para manter a promessa do fim do ano passado. Até que me deparo com um jovem, em seus 20 e poucos anos, absorto em pensamentos ainda mais que eu, também curtindo o repouso muscular até a próxima série de exercícios. Moreno, alto, bonito e sensual, talvez seja a solução dos meus problemas, carinhoso, bom nível social. Ta, exagerei, né? Latino? Culpa dos tóxicos. Mas o cara era boa pinta, alto, sarado na medida certa, nem pra mais nem pra menos, tudo no lugar. Aí a criatura resolve me tirar dos meus devaneios de encalhada (bem me lembro dessa época) tirando tatu do nariz, mas tatu daqueles pra concurso de tatu, analisa bem a obra de muco ressecado e depois limpa na calça.
Preciso nem expressar em palavras o tamanho da minha decepção, né? E olha que naqueles não mais que 30 segundos que separaram o meu devaneio daquela visão, talvez a mais a desnecessária de todo o meu tempo de academia, ainda nem tinha dado tempo de eu construir um amor platônico pelo indivíduo que sequer tinha apercebido-se da minha presença. Claro que eu também não preciso dizer que não interessa o grau de desenvolvimento muscular da criatura, muito menos a desenvoltura intelectual e, francamente, tenho que dizer que nem o volume da carteira iria fazer muita diferença depois desse dia, eu jamais conseguiria vê-lo novamente sem que minha mente fizesse o favor de evocar obcessivamente a imagem daquele tatu sendo resgatado.
Meses depois eu ainda estou malhando, nem tão firme nem tão forte - maldito chocolate -, porém diariamente pagando para passar trabalho e coletar material para discussão barata e filosofia de banheiro. Divagando entre uma série e outra, pensando quem sabe no livro de sexo das bactérias que eu vi ontem na feira do livro, novamente vejo o jovem do parágrafo anterior também relaxando a musculatura bem mais firme e mais forte que a minha. Dessa vez ele está de costas para mim. Estou sorrindo comigo mesma revendo a imagem exaustivamente descrita acima quando o rosto dele entra no meu campo de visão, refletido pelo espelho. Qual não é a minha surpresa quando vejo que o rapaz está, novamente, tirando tatu do nariz.
Nesse dia eu tive certeza de duas coisas: preciso de uma academia mais cara, embora Berlusconi tenha provado que dinheiro não necessariamente é garantia de educação (para saber mais clique aqui); algum dia deixarei o patamar de aspirante e serei escritora.