Algumas pessoas são anjos, porém sem asas.
Ela é um anjo.
Ela ia à missa todo domingo de manhã.
Ela fazia comida para dar às crianças de rua todos os dias.
Ela tirava seu próprio casaco caso visse alguém passando frio na rua.
Ela criou três filhos sozinha, enfrentando uma viuvez inesperada e a consequente falta de dinheiro.
Ela deixou de "viver" para dedicar-se à amparar seu pai doente, logo em seguida à mãe.
Ela sempre foi o porto seguro de qualquer um que sempre precisou de apoio.
Ela pegava minha mão toda noite na hora de dormir, enquanto ouvíamos os sapinhos do terreno do lado.
Ela me levava a mamadeira na cama no outro dia de manhã, enquanto brincávamos de esconde-esconde embaixo da coberta de pena que tinha o cheiro dela.
Ela passava boa parte da manhã procurando os óculos para então perceber que eles estavam pendurados em seu pescoço.
Ela ria disso.
Ela sempre tinha bala azedinha no guarda - roupa.
Ela sempre tinha talquinho.
Ela sempre tinha água - benta na entrada do quarto, bem como muitos santinhos e imagens espalhados pela casa.
Ela fazia arroz e antes de servir enrolava a panela em um saco de pão. Era o melhor arroz do mundo.
Ela adorava arroz, feijão e maionese.
Ela ia ao supermercado comigo, e sempre teve paciência com uma criança chata pedindo tudo ao redor.
Ela brigava comigo quando eu deixava as coisas fora do lugar ou as gavetas abertas.
Ela fazia croché com uma perícia incrível.
Ela cuidava de suas roseiras quase como se fossem uma criança.
Ela encerava a casa e brigava caso eu andasse de pés descalsos.
Ela comprava meias com anti-derrapante para mim.
Ela me ensinou a jogar "cinco - marias" com pedrinhas de brita.
Ela fez saquinhos de "cinco - marias" com arroz dentro quando eu comecei a machucar os dedos com a brita.
Ela cuidava das parreiras para que as uvas fossem sempre bonitas e gostosas.
Ela me ensinou a fazer "tripa de porco" quando algo me desagradasse.
Ela tinha o pé do jeito que eu queria ter.
Ela tinha unhas que nunca quebravam.
Ela não tinhas cócegas em nenhum lugar do corpo.
Ela não sabia escrever, mas eu sempre achei linda a letra de quando ela escrevia seu nome.
Ela era canhota. Por causa disso sempre odiei ser destra.
Ela não gostava muito do cabelo dela, mas eu sempre achei lindo. O prateado dava um charme ao liso natural.
Ela era linda.
Ela tinha a paciência de um anjo.
Ela contava rindo sobre como ficou viúva.
Ela sempre achava o lado bom das coisas.
Ela ria de qualquer situação, o que as tornava não tão ruins assim.
Ela realmente sabia viver.
Ela foi a melhor nonna que eu poderia ter tido.
Ela foi a melhor pessoa que eu poderia ter conhecido.
Ela foi a melhor pessoa que poderia ter existido.
Ela sempre vai morar na minha mente e no meu coração.
Ela me ensinou a dançar a "dança do pezinho"
'ai bota aqui, ai bota ali o seu pezinho
seu pezinho bem juntinho com o meu
mas depois não vá dizer que você me esqueceu'
Tudo tem seu tempo. Tudo tem seu fim. Missão cumprida.
Descansa em paz.