"Médico é raça ruim", ouvi minha mãe dizer repetidas vezes ao longo da vida. À época do vestibular tive dificuldade para escolher o que queria fazer pelo resto da vida. Nada diferente de quase qualquer "aborrecente", imagino. Foi em uma Feira de Profissões do antigo CEFET-RS que dei o braço a torcer a assumi que, gostando de química e biologia, talvez pudesse ser uma boa médica. E foi assim que, totalmente desinformada da realidade, escolhi cursar medicina, contrariando todos os conselhos da minha mãe.
A primeira aula da faculdade foi Anatomia. Interessante, até. Porém repleta de novos e difíceis termos ensinados por um professor careca, vermelho, gordinho e prepotente. Foi a primeira pessoa na vida que despertou em mim uma imensurável vontade de mandar tomar lá onde o sol não chega. Aos dezessete anos tive dificuldade para entender por que algumas pessoas sentem a necessidade de humilhar, de se comportar como social e moralmente superior. "Médico é raça ruim", dizia minha mãe em resposta às minhas infindáveis queixas.
Ao longo dos anos conheci incontáveis "doutores". Alguns formados, outros não, alguns com título de doutorado, outros não. Conheci pessoas que, dentro de uma faculdade de medicina, não possuíam a capacidade tratar gente como gente, fosse paciente, enfermeiro, aluno ou colega. Encontrei pessoas que não conheciam agradecimentos, quiçá gentilezas. Convivi com médicos (ou quase médicos) que não se comportavam com um quarto da educação e polidez que já recebi de gente analfabeta, sem estudo, humilde e moradora da periferia. A duras penas passei a compreender com mais proximidade o que as palavras já desgastadas da minha mãe queriam realmente dizer. Alguns se formam médicos, outros nascem "doutores".
Claro que pessoas grosseiras e mal educadas são encontradas em qualquer lugar, não é privilégio de nenhuma classe. O problema maior reside no fato de médicos serem profissionais especializados no cuidado de pessoas e, no entanto, muitos deles não saberem sequer se comportar como uma. "Doutores" que tratam mal a seus alunos, colegas, pacientes. E a gente bem sabe que pacientes usualmente são indivíduos fragilizados que precisam de cuidados, não de descortesias.
Ninguém é obrigado a ser uma pessoa agradável, eu que o diga. Porém todos deveriam ao menos se comportar feito uma, especialmente quando se lida tão de perto com a saúde e a fragilidade humana. Que os estudantes de medicina cheguem na faculdade com humildade suficiente para não endurecer e não enrudecer, e que assim possam se formar médicos que cuidam de gente, e não especialistas em doença.