terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O pesar de olhar para trás

Por mais que digam que não tenho motivos para reclamar da vida, afirmação que não posso refutar como inteiramente falsa, de certo modo olho com algum pesar para meus dias passados. Não um pesar de arrependimento. Nem de saudade. Olho para trás e o sentimento que me domina é a mais pura curiosidade. 

O que teria sido de mim se... as escolhas tivessem sido diferentes? Se eu tivesse ido morar com meu pai. Se a minha mãe não tivesse casado. Se eu não tivesse pedido um irmão. Se eu tivesse ido cursar o CAVG. Se eu tivesse concluído telecomunicações. Se eu tivesse seguido no caminho da engenharia. Se eu tivesse estudado mais durante a faculdade. Se eu tivesse passado na prova de residência. Se eu tivesse ido trabalhar fora de Pelotas. Se.. se.. se...

E se eu não tivesse endurecido tanto com o andar do meu relógio? E se eu tivesse endurecido ainda mais?

Reza a lenda que rituais marcam a transição entre as  fases da vida, e é assim desde o início dos tempos. Acabo de enfrentar mais um rito de passagem, a formatura. Tal qual foi o trote. A solenidade no fim do ensino médio. A aula comemorativa que introduziu os alunos ao CEFET. A festa de 15 anos. A primeira ida ao supermercado para comprar absorvente. O primeiro sutiã. O maternal. 

Tal qual todas as vezes anteriores, sinto que agora é diferente. Não é uma diferença externa, mas extremamente sutil, pessoal e íntima. Entretanto, embora pequena, plenamente mensurável. Agora não foi apenas o diploma de curso superior que veio parar em minhas mãos, foi também o carimbo contendo o CRM, a responsabilidade pela vida das pessoas, o salário no início de cada mês. Foi o próprio sustento. A saída definitiva de baixo da saia da mamãe. Foi a responsabilidade da vida adulta que bateu na minha porta. 

Pode parecer estranho, difícil à primeira olhada. E assim o é, de fato. É como descer do ônibus no meio da estrada e ter que seguir sozinho dali pra frente. E, por mais desesperador que possa ser nos primeiros instantes, arrisco sem medo que é uma das melhores sensações que já conheci. A mais pura e plena liberdade.

Libertação das dívidas familiares. Dos professores intragáveis. Dos colegas intoleráveis. Do castigo que é ser universitário. Nunca, nem por um segundo, desejei voltar ao período inglório da insatisfação pessoal. Entretanto mentiria se dissesse que a formatura também não trouxe consigo navalhas que tolheram a minha liberdade individual. É mais uma face da vida cujas regras mostram-se claras como água: nada se ganha, tudo é uma troca. 
E o preço que paguei, até então, também é perceptível aos olhos de um observador atento. Não devo mais usar all star. Barriga de fora é inadequado. Shorts não tem mais lugar por aqui. Decote extremamente comedido. Cabelo sempre em cores usuais. Palavrão apenas internamente. Sorriso estampado sempre. E quantos etecéteras mais couberem nesta postagem. 

Mas para falar bem a verdade, o que mais me dói não é a perda do dinheiro da minha mãe, nem o auxílio nem sempre constante dos orientadores. Muito menos o modo como a etiqueta médica orienta que eu deva vestir. O que constantemente espeta minha alma é a perda da inocência, da ingenuidade. O que machuca mesmo é não conseguir mais expressar aquela semblante infantilmente apaixonado. Ou a alegria com as pequenas coisas da minha vida. É não mais acreditar fielmente em amizades. É chegar no mundo adulto friamente decepcionada com as atitudes dos chamados "gente grande".

E é assim que, mesmo sem ter o que reclamar da vida, olho para trás com pesar. Pesas das coisas que eu poderia ter sido e não fui. Pesar das que poderia não ter sido e fui. Pesar de ter perdido em algum ponto da estrada a infantilidade requerida para a mais pura felicidade. Não sei o que teria sido de mim caso as escolhas houvessem sido diversas. Só o que sei é que lamento, profundamente, ter deixado morrer a criança que já existiu em mim.

sábado, 8 de janeiro de 2011

As Aventuras dos Quatro Patetas - Parte 1

O dia havia sido quente. Insuportavelmente quente. Grosseira, e infernalmente quente. Com o descansar do sol sob o o horizonte e a leve chegada da noite, a temperatura não cedeu e o calor não deu a trégua esperada. De modo que os quatro patetas decidiram aproveitar a noite infernalmente quente de sexta-feira para passear e ir tentar passar frio na praia.

Aprontaram o inadequado chimarrão, gravaram o CD para o rádio pré-histórico do carro e zarparam em direção ao tão esperado, amado e desejado fiapo de frio (e, é claro, pastel de camarão já que em casa não tinha janta). Quarenta minutos depois os quatro patetas estavam chegando na tão inadequadamente famosa e suja pastelaria, com mesas espalhadas na rua escura, servidas por garçons apressados, sobrecarregados e certamente mal remunerados. E o frio? Boa pergunta, os Russos devem tê-lo prendido por lá, pois por ali não foi visto. Nem na praia.

Mais quarenta minutos e os quatro patetas estavam comendo seus pastéis extremamentes gordurosos com coca-cola quente. Já comidos, o pedido da conta revela que o maculado local adiciona taxa de serviço de mesa, o que levou à exoneração das últimas moedas contidas nas carteiras dos desavisados que não imaginaram previamente que comeriam no escuro, em meio à sujeira camuflada  e onde não seria aceito cartão.

Fartos, engordurados e sem dinheiro, os quatro patetas partem em direção aos "botecos do porto", ponderando o que fariam por lá sem dinheiro. Os homens descem do carro para ir ao banheiro enquanto as mulheres permanecem escondidas, tentando camuflar o resultado do escasso vento da praia no cabelo. Terminam por avistar farto grupo de amigos ao longe, em meio a tamanha multidão. Trancam o carro e juntam-se a ajudá-los a por fim na cerveja já comprada antes que esquente mais.

Decidem ir embora e, qual não é a surpresa dos quatro patetas quando se aparecebem que sairam do carro de deixaram a chave trancada dentro. Rodeados por uma multidão desconhecida, trancados fora do próprio carro, com calor, engordurados e sem dinheiro. Tem dias (e noites) que não se deve, mesmo, sair de casa.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Começando 2011

Dois mil e dez acabou. Finalmente. E com ele acabou a faculdade. E com a faculdade acabou a convivência forçada, as atividades bizarramente inumanas e, fatalmente, o mau humor sem fim. Dois mil e dez foi embora e levou consigo obrigações e lembranças que eu não quero manter nem para contar histórias.

Dois mil e onze começou. Até que enfim. E com ele veio o CRM, o carimbo, um emprego, algum dinheiro, o próprio sustento e, inevitavelmente, a responsabilidade do famoso mundo de gente grande. Dois mil e onze veio para obrigar-me a crescer e aparecer, lançar-me no mundo dos adultos. Viver para mim, tomar decisões por mim mesma, estando preparada ou não.

A bem da verdade, não tem sido tão difícil, até então. A gente se sente meio sem direção, sem saber para que lado correr, como se tudo fosse um grande descampado e qualquer lado fosse um possível caminho. Falta aquela mão de mãe a nos puxar pelo braço e colocar na direção correta. O bom é que qualquer direção é mesmo um possível caminho a percorrer, repleto de possibilidades. O mundo não é um lugar tão inóspito para quem se abre às possibilidades e se permite agarrar as oportunidades. Cada coisa a seu tempo.

Eu me abri às mudanças, tanto as inevitáveis quanto as opcionais. Mudei de cabelo. Mudei de estilo de guarda roupas. Em breve mudarei de casa. Mudarei de móveis. Não mudarei de carro porque, infelizmente, a medicina não está pagando tão bem assim. Mudei de blog. Mudei eu mesma.

Dois mil e onze muito mais ainda me reserva, espero que sempre com o mesmo requinte de bom gosto que tem sido nesses primeiros dias. Quanto a 2010, não guardo mágoas ou rancores. Agradeço imensamente todas as coisas maravilhosas que foram agregadas à minha vida nesse ano que passou, porém sem as dificuldades que precisei enfrentar.

Agora sou médica, não posso mais chorar as mágoas pelos meus problemas, não é?