Por mais que digam que não tenho motivos para reclamar da vida, afirmação que não posso refutar como inteiramente falsa, de certo modo olho com algum pesar para meus dias passados. Não um pesar de arrependimento. Nem de saudade. Olho para trás e o sentimento que me domina é a mais pura curiosidade.
O que teria sido de mim se... as escolhas tivessem sido diferentes? Se eu tivesse ido morar com meu pai. Se a minha mãe não tivesse casado. Se eu não tivesse pedido um irmão. Se eu tivesse ido cursar o CAVG. Se eu tivesse concluído telecomunicações. Se eu tivesse seguido no caminho da engenharia. Se eu tivesse estudado mais durante a faculdade. Se eu tivesse passado na prova de residência. Se eu tivesse ido trabalhar fora de Pelotas. Se.. se.. se...
E se eu não tivesse endurecido tanto com o andar do meu relógio? E se eu tivesse endurecido ainda mais?
Reza a lenda que rituais marcam a transição entre as fases da vida, e é assim desde o início dos tempos. Acabo de enfrentar mais um rito de passagem, a formatura. Tal qual foi o trote. A solenidade no fim do ensino médio. A aula comemorativa que introduziu os alunos ao CEFET. A festa de 15 anos. A primeira ida ao supermercado para comprar absorvente. O primeiro sutiã. O maternal.
Tal qual todas as vezes anteriores, sinto que agora é diferente. Não é uma diferença externa, mas extremamente sutil, pessoal e íntima. Entretanto, embora pequena, plenamente mensurável. Agora não foi apenas o diploma de curso superior que veio parar em minhas mãos, foi também o carimbo contendo o CRM, a responsabilidade pela vida das pessoas, o salário no início de cada mês. Foi o próprio sustento. A saída definitiva de baixo da saia da mamãe. Foi a responsabilidade da vida adulta que bateu na minha porta.
Pode parecer estranho, difícil à primeira olhada. E assim o é, de fato. É como descer do ônibus no meio da estrada e ter que seguir sozinho dali pra frente. E, por mais desesperador que possa ser nos primeiros instantes, arrisco sem medo que é uma das melhores sensações que já conheci. A mais pura e plena liberdade.
Libertação das dívidas familiares. Dos professores intragáveis. Dos colegas intoleráveis. Do castigo que é ser universitário. Nunca, nem por um segundo, desejei voltar ao período inglório da insatisfação pessoal. Entretanto mentiria se dissesse que a formatura também não trouxe consigo navalhas que tolheram a minha liberdade individual. É mais uma face da vida cujas regras mostram-se claras como água: nada se ganha, tudo é uma troca.
E o preço que paguei, até então, também é perceptível aos olhos de um observador atento. Não devo mais usar all star. Barriga de fora é inadequado. Shorts não tem mais lugar por aqui. Decote extremamente comedido. Cabelo sempre em cores usuais. Palavrão apenas internamente. Sorriso estampado sempre. E quantos etecéteras mais couberem nesta postagem.
Mas para falar bem a verdade, o que mais me dói não é a perda do dinheiro da minha mãe, nem o auxílio nem sempre constante dos orientadores. Muito menos o modo como a etiqueta médica orienta que eu deva vestir. O que constantemente espeta minha alma é a perda da inocência, da ingenuidade. O que machuca mesmo é não conseguir mais expressar aquela semblante infantilmente apaixonado. Ou a alegria com as pequenas coisas da minha vida. É não mais acreditar fielmente em amizades. É chegar no mundo adulto friamente decepcionada com as atitudes dos chamados "gente grande".
E é assim que, mesmo sem ter o que reclamar da vida, olho para trás com pesar. Pesas das coisas que eu poderia ter sido e não fui. Pesar das que poderia não ter sido e fui. Pesar de ter perdido em algum ponto da estrada a infantilidade requerida para a mais pura felicidade. Não sei o que teria sido de mim caso as escolhas houvessem sido diversas. Só o que sei é que lamento, profundamente, ter deixado morrer a criança que já existiu em mim.