terça-feira, 30 de setembro de 2008

Quando será que a coisa melhora?

Esses dias, fugindo do iminente e necessário estudo para as 4 provas desta semana, deparei-me com a atualização do blog da Ingrid. Dentre todas as palavras lá proferidas, sem dúvida as que mais prenderam minha atenção foram as que compunham a seguinte construção frasal: "Minha inteligência é indispensável. Eu detesto gente burra e que não pensa. Se eu penso e perco um domingo de sol na frente do computador é porque eu amo a minha profissão, amo criar e dou valor para meus estudos." Bonito isso.

Hoje em dia é estranho encontrar alguém que grite a plenos pulmões que ama sua (futura) profissão. Eu, por exemplo, faço parte daquela casta de pessoas que ama o que deveria fazer, mas na prática não é bem o que faz. O que, por mais que eu realmente dissesse que amo o que faço, na verdade não passaria de um discurso hipócrita de quem "virtualmente gosta da profissão". Sim, vitualmente porque o que eu faço hoje em nada se parece com o que eu farei pro resto da vida. Não vou citar exemplos porque a explainação já está entediante o suficiente sem que eu precise esforço para tal. Mas o fato é que eu não posso enganar, nem a minha nem a meus leitores, dizendo que eu gosto e amo o que faço, pois não seria verdade. Eu amo o que eu deveria fazer e não faço.

Concordo com minha querida amiga, minha inteligência é indispensável e eu odeio gente burra que tem preguiça de pensar. Mas eu não perco um domingo de sol na frente do computador, mas sim escondida atras de livros. E esses domingos perdidos dóem quando eu olho pra recompensa e vejo que não valeu a pena, que não era isso que eu queria estar fazendo, que até a faxina do banheiro parece mais interessante que as atividades que eu ou obrigada a executar. Não que o banheiro da minha casa seja tentador, mas ir diariamente ao hopital conviver com pessoas que acham que eu não tenho mais nada pra fazer, encontrar pacientes (que não são meus) a beira da morte, executar trabalho escravo absurdamente pouco aproveitado no sentido estudantil é que dificulta minha saída da cama toda manhã. Tudo isso agravado pela falta de sábado e domingo, em que eu ainda preciso cumprir tabela e comparecer ao hospital pra mais um pouquinho de trabalho exaustivo, não opcional e não remunerado. Apesar disso a clínica teórica é linda.

Linda, mas não compensa. Pelo menos a meus olhos não vale a pena não poder assisitir meus seriados favoritos na televisão, não compensa a impossibilidade de exercício mental mediante leitura sem compromisso, não vale a pena a impossibilidade de dar seguimento a meus projetos paralelos. Não compensa uma vida vivida exclusivamente para a medicina, pois eu sinto falta das coisas mais banais que não me são mais permitidas, por mais que eu realmente goste de estudar. Eu amo a medicina, mas apenas ela não me satisfaz, preciso de mais... e não me é permitido.

E aí, em momentos como esse em que eu deveria estar estudando para as duas provas de amanhã, ou a de depois de amanhã, ou para o seminário que eu tenho que apresentar depois de depois de amanhã, eu estou aqui, cansada, com sono, tentando distrair os pensamentos por alguns minutos porque eu preciso voltar a estudar, já que todo o resto do dia é ocupado por atividades acadêmicas. Minha força para continuar é o pensamento de que um dia tudo isso melhora e eu serei soberana de mim mesma para exercer a medicina do melhor jeito que me convier. Ou pelo menos assim espero. Eu invejo poucas coisas nessa vida, uma delas são aqueles tipos genéticos que podem comer um boi por dia que não engordam, outra não aquelas pessoas amam o que fazem, e que, ou isso é suficiente, ou lhes é permitido "atividades extra-classe".

Sigo eu perguntando-me, quando será que a coisa melhora?

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Uma Tarde no Hospício

Concurso:
Melhor pérola do plantão psiquiátrico:




- Ah minha filha, agora com 71 anos finalmente encontrei o amor da minha vida. Ainda não nos conhecemos pessoalmente, mas assim que ele puder sair do serviço e vir me conhecer nós vamos casar.

- De onde ele é?

- Ah, de longe... mas a gente se fala a todo momento. Pena que ele ainda não pôde vir. Me prometeu que ia me dar uma prova que ele existe, disse que ia me mandar um pão de presente. Tadinho... era bem o dia do feriado, as padarias estavam fechadas, não pôde mandar. Ainda bem que a gente ta sempre se falando.

- Se falam como?

- Ligação oras.

- E não sai caro?

- Claro que não, ligação mental é de graça.



------------------------------------------------------------------------------------------------



- Bah né, daí minha filha de 21 anos fuma pedra, tava acabada. Eu achava é que ela não tinha força de vontade pra largar o vício, daí resolvi provar pra ela que crack não vicia porra nenhuma. Fudeu né, agora nós duas brigamos pra saber quem vende o que de casa pra comprar a pedra.

- E o resto da família?

- Ah, minha filha de 13 é que trabalha e sutenta a casa. Meu marido, coitado, ficou pena de ver nós duas na pedra, aí pra nos dar uma força começou a fumar também. Fuma com nós todo dia, mas ele não é viciado, não!



-------------------------------------------------------------------------------------------



- Ô dotorinha... que mané remdinho branco o que?! To aqui dentro pra medir pressão... não preciso de remédio... ta achando que eu sou louco, é?



-------------------------------------------------------------------------------------------



- COMO TU É CAPAZ DE CHAMAR MARIA, A MÃE DE DEUS, DE LOUCA? SUA ENDEMONIADA!! NÃO SE PODE MAIS NEM SACRIFICAR O FILHO EM NOME DE DEUS QUE OS FILHOS DO DIABO VEM INTERROMPER A ADORAÇÃO DE MARIA, A MAE DE JESUS, PARA DEUS? DEMONIA!!!!!



--------------------------------------------------------------------------------------------


- psssssssssssiuuuuuuu! Cala a boca porra!!!!

- Que foi?

- Essas vozes que não param de me encomodar... medica eu não, dá remedinho pra elas... eu sou normal, essas vozes que vem encomodar... medica elas....


--------------------------------------------------------------------------------------------


A verdade é que eu tenho pena.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Diálogo em Transporte Coletivo

O porquê todo mundo deveria usar fones de ouvido em meio aos empurrões, puxões, bolsadas, chutes e coxadas:





- ... bah né, daí deu uns pobrema lá...


- poblema.

- han? eu sou meia ruim em português, nunca sei quando usar pobrema ou poblema...

- assim, vou te explicar: quando é coisa da vida, poblema em casa e no trabalho, se diz poblema. Quando é de matemática, é pobrema.

- ahhh, como tu é inteligente!

terça-feira, 2 de setembro de 2008

O Significado do Reclamar.

Reclamar é uma arte. Pois claro que é. Pensamentos positivos qualquer macaco treinado consegue formular, mantras da boa vontade fluem soltos pelos lábios, pela luz o caminho sempre é mais fácil. Difícil mesmo é caminhar na escuridão, tropeçando nos próprios pés, encontrando o mais ínfimo e escondido aspecto desagradável até mesmo nas melhores situações. Reclamar com classe, sim, isso é que é tarefa para poucos. E eu, feliz ou infelizmente, sou dotada da quase inesgotável capacidade de encotrar pontos negativos, falar mal e reclamar sobre todas as coisas que me cercam.

Claro que a bola da vez não poderia ser outra a não ser a malfadada faculdade. Poxa, eu também sou filha de deus, também gosto de mordomias e sempre escolherei o caminho mais fácil. Por que esforçar-me em procurar novos e diversos assuntos reclamáveis se meu ambiente (dito) de estudo propicia tantas situações propícias que nem sequer eu mesma consigo falar mal de todas com a rapidez com que elas surgem? Claro que elas não se importam em ficar esquecidas no depois quando a concorrência é tão desleal, devemos reconhecer nossas limitações.

Pois é fato que não é novidade para ninguém que o curso formador de médicos é extremamente estressante (e olha que eu acho até que levo numa boa). Tem dias que os pacientes são um saco, as aulas são um saco, a fisiopatologia das coisas é um saco, e, principalmente, os professores (leia-se superiores) são um saco... se bem que esses são um saco sempre. E como se tudo isso não fosse o suficiente para desagregar alguém, o sistema é absurda e completamente falho. Claro que isso é uma opinião pessoal, e caso algum querido leitor discorde da afirmação, obviamente estamos abertos a discussão. Mas falo isso baseada no fato de que eu não creio que atender demanda do SUS como mão de obra barata (pra não dizer de graça), associada a cobrança não condizente com o conhecimento transmitido, maximizado com uma farsa tentativa de tornar a coisa mais acadêmica com um seminário meramente ilustrativo, seja um bom método de ensino e formação médica. Isso quando sequer há a tentativa do 'seminariozinho'. Sim, eu realmente acho esse sistema uma farsa.

E é aí que eu acabo identificando com músicas melancólicas de letras intensas e chocantes, tipo Another Angel Down - Avantasia. O trecho principal diz:

"We rock the ball, been smashed to the ground
Arose from devotion to take a look and see what is inside
Sight of the crown: another angel down
We rock the ball, I'm facing my pain
A rage and a symphony driven by the wounds I cannot hide
Rise above the crowd: another angel down"

Eu não vou traduzir, quem quiser que use o tradutor da google (bem que eu poderia receber comissão pela propaganda). Mas a questão é que, por mais que eu tente manter minhas convicções, meus sonhos, meus planos e, principalmente, minha índole, eu tenho a péssima mania de sempre analisar o que se passa dentro de mim(não no sentido literal), encarar o que me causa dor, e sucumbir à fúria guiada pelos ferimentos que eu não sou capaz de esconder. E então mais um anjo junta-se à horda dos renegados anjos caídos.

Qualquer criatura acima de 5 anos de idade vai entender o que eu quis dizer metaforicamente, mas eu explico mesmo assim. A cada dia dispendido em minhas onerosas atividades acadêmicas, minhas boas motivações são substituídas por angústia, fazendo com que diariamente um pedaço daquilo que me diferencia de tantos outros "colegas" morra, bem aqui dentro de mim, a humanidade. E ao final só o que restará é mais um exemplar do que a faculdade de medicina forma, anjos caídos, somados aos que já começaram como diabos.

E essa é a coisa mais triste que existe, a sensação de ser vencida pelo sistema. E por mais que eu tente, flagro-me a pensar sobre o que será do amanhã, o ontem ainda teima em martelar na minha mente, não sou capaz de viver apenas por esta noite (leu a letra da música?). E em meio à impotência, reclamar é o único mecanismo de defesa a que consigo apegar-me.