terça-feira, 19 de outubro de 2010

Esse Final de Faculdade

Pois então que a galerinha tem tido certa dificuldade em saber se o que eu escrevo aqui é verdade ou ficção. Já que ler nota de autor não parece ser o forte da gurizada, pois ainda assim ficaram torrando meu saco inexistente no msn, orkut e tuíter, o primeiro parágrafo deste texto será inteiramente dedicado aos meus mais fiéis e amados (e também aos não tão amados assim) leitores: essa bodega dessa texto é sobre a minha singela e sem graça vidinha. Podem começar a apurrinhar minha falta de paciência agora.

Antes de mais nada, vou explicar como funcionam estágios finais na faculdade de medicina - UFPel, porque eu já to de saco cheio de explicar individualmente pra cada um que pergunta. Seguinte, os 4,5 anos iniciais são de atividades teorico-práticas, avaliadas semestralmente nas infinidades de cadeiras de compõe cada semestre. Como quase qualquer faculdade normal. O ano e meio final é de estágio prático obrigatório. OBRIGATÓRIO, viram bem? Três meses em cada uma das áreas básicas, a saber: ginecologia e obstetrícia, pediatria, cirurgia, clínica médica e medicina comunitária. Qualquer energúmeno que faça as contas perceberá que faltam ainda 3 meses para completar os 15 que compõe o período de estágio final (é, sem férias, ta pensando que estudante de medicina é gente?). Esses 3 meses, chamado de estágio optativo, cada aluno faz na área que bem entender, no lugar que bem quiser. Apenas esses 3 meses o aluno escolhe, os demais, como o nome já diz, são obrigatórios e nas dependências da faculdade de medicina. Explicado isso, dou início finalmente ao que tinha em mente para hoje.

Formatura prevista para dezembro, estou concluindo a faculdade no estágio da gineco. Isso levando em conta que toda aquela baderna que o colegiado de curso fez com o meu meu fim de faculdade venha a se resolver. De qualquer modo, com enade ou sem enade, eu tenho que atender à mulherada no ambulatório, cumprir minhas horas de plantão na maternidade e trazer ao mundo quantas criancinhas tiverem que vir. Sempre, é claro, sendo não paga para isso. Aí vem algum babaca e diz que não pago nada pela faculdade, essa mão de obra gratuita não passa de um modo de pagar pelo curso que o governo me ofereceu. Tenho vontade de enfiar lá onde não pega sol do babaca em questão a quantidade de impostos que eu pago e que, portanto, pagam minha formação. Não o faço porque seria radical demais, até pra mim.

Mas é exatamente aí, naquela madrugada sem dormir contando batimentos cardíacos fetais + contrações uterinas a cada 20 minutos, tentando ignorar o grito histérico da futura mãe e com os dedos enluvados enfiados - literalmente - no útero da criatura tentando mensurar a quantas anda a descida da cabeça da criança, que eu penso seriamente que tipo de pessoa imagina essa cena quando perguntam lá no jardim de infância o que querem ser quando crescer.

Sejamos francos, quem quer ser médico deve se imaginar lindo e loiro com um bebezinho cheiroso no colo, ou olhando um raio-X, ou sei lá, qualquer dessas cenas meigas e fajutas que as pessoas montam para eternizar, emperequetadas, quando tiram fotos para a formatura. Não acredito que alguém queira ser médico para cheirar secreção vaginal, ou pra cauterizar verruguinha de DST, ou pra esperar uma criança sair de uma perseguida detonada. Não, não e não. Não era isso que eu queria fazer quando eu crescesse.

Em fim, a coisa boa desse estágio é que ele acaba. E com ele a faculdade. E depois dessa provação de estômago e paciência eu nunca mais vou enfiar meus dedinhos em uma perereca. Nem na minha, antes que perguntem. Pra vocês verem o tamanho do meu trauma. Todo dia eu me pergunto se ainda da tempo de largar a faculdade e ir fazer outra coisa. Jornalismo, já que não precisa de diploma, ou viver como comediante e morrer de fome. Ou quem sabe eu aguento as secreções mais um tempinho, estudo um pouco mais e encaro o lado da medicina que me facina mas que, paradoxalmente, não faz parte da medicina tanto assim. Esquizofrênicos e deprimidos, aguardem, eu demoro mas eu chego. Viva, certamente, mentalmente sã talvez nem tanto.

Um comentário:

  1. Realmente as tuas descrições são pra qualquer pessoa desistir da obstetrícia!!!!
    Mas acho que ainda assim, haverá quem tenha o dom pra isso, pois é preciso, certo?!
    Sorte e força nessa finaleira, porque vai passar logo. Estamos ambas correndo contra o que podemos, ou a favor, quem sabe.
    Tu ainda vais ter festa de formatura antes de mim!!!!
    Pois bem, futura psiquiatra, mantenha tua mente sã!

    Bjussss

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