terça-feira, 2 de novembro de 2010

Finados

Dia de finados, não sendo visto como mais um feriado dentre tantos outros feriadões previstos na segunda metade de cada ano, é um dia de luto. Um feriado dedicado a homenagear os mortos. Como tal, experenciado do modo mais próximo ao previsto, em geral, pelas pessoas mais velhas. É inevitável que o passar do tempo traga consigo cadáveres, os quais acumulam-se como pano de fundo das vidas, tal qual álbuns de fotos empoeirados em gavetas de estantes.

Aos 23 anos não acumulo muitos cadáveres nos meus álbuns de fotos empoeirados. Aliás, sequer há tempo suficiente para o acúmulo de poeira nos porta-retratos adornando as prateleiras da estante de uma vida de vinte e poucos anos. Entretanto também tenho fotos de gente que não existe mais, esquecidas em alguma gaveta junto a cartas antigas, eternizando amizades passadas e amores perdidos em um tempo que não voltará. Meu cemitério é particular, e o epitáfio é de composição própria. Coleciono Cristines sucumbidas ao longo dos tropeços e quedas da minha biografia.

A criança loira, cacheada e assustada, calçando melissa rosa adornada com a abelhinha, equilibrando-se na ponta dos pés tentando visualizar a mãe por cima do balcão em alguma atitude de adulto sem muito sentido à época, há muito tempo às pressões da suposta "chatice" da vida de criança. Especialmente quando se é uma criança com "síndrome de Peter Pan reversa". Não suportou viver na doce prisão da falta de preocupação infantil, culminando, portanto, no suicídio da despreocupada alegria infantil. Nenhum final mais justo para a criança que queria ser gente grande.

A versão adolescente, morena, apaixonada, chorona, carente e vestibulanda da Cristine também se perdeu em alguma página rasgada no meio do caminho. Primeiro dia de aula da faculdade de medicina, quem sabe? Primeira briga presenciada entre os colegas, talvez aquela motivada por banco de questões de provas, é provável. Primeira verdadeira decepção amorosa, daqueles pés na bunda dignos de contos motivacionais de livros de autoajuda, quiçá. Ou talvez tenha sido apenas a tinta de cabelo, afinal de contas. Nem todo poço é tão profundo quando parece, afinal de contas.

Ruiva, fortemente maquiada, vestes escuras, coturnos femininos (?) nos pés e infinitas estacas no coração, por vezes lágrimas nos olhos. O total despreparo e desumano desamparo do pseudo-médico que inicia o contato com a morte e o sofrimento alheio deixam mais uma Cristine sem vida esquecida em meio à literatura. Expurgo que jaz à beira da estrada da vida, abatida por decepções talvez desumanas, ainda que infinitamente necessárias à sobrevivência na selva de pedra em somos injustamente inseridos. Índole "leal e boa" está enterrada ao lado da Cristine RPGista, fanática, fiel e, simbolicamente, de cabelos ruivos.

Assumindo novamente as madeixas louras, sem, entretanto, reassumir a bondade infantil, visto-me como mulher quase tentando esconder a criança assustada que perdeu a mãe de vista, escolhendo os passos sozinha sem ter a quem dar a mão. Em alguma cova cuja lápide consta meu nome está enterrada também a capacidade de sentir pena, desgraça não me comove mais. Nem a minha própria, se querem saber, quem dirá a alheia. Enterrei também a necessidade de agradar, portanto não disfarço mau humor nem dispenso grande energia tentando parecer simpática. Gasto meu ATP com competência, o resto é opcional. E, como tem coisas que, feliz ou infelizmente, nunca mudam, sempre fui adepta do kit básico.

Daqui a pouco tudo muda. Ou nada muda. Ou mudam só algumas coisas coisas. Ou até o que tinha pra mudar já mudou. Essa é a maravilha da vida, a gente tem a chance de mudar, reinovar, reinventar, redecidir, recomeçar. Nem sempre é pra melhor, é bem verdade, todavia o conceito de melhor ou pior depende das lentes que se usa e de qual ângulo que se analisa. Depende. Hoje sei que estou melhor do que já fui. E pior também. Estou em luto por todas as versões de mim mesma que, tendo quisto ou não, deixei para trás. Coleciono, assim, cadáveres, uns à mostra, na estante, outros escondidos, sob o tapete. Que a pilha aumente pois, tal qual as rugas na face de um idoso, provam a carga de experiência adquirida. E que junto com as rugas eu consiga adquirir sabedoria na mesma velocidade que adquiro conhecimento, aproveitando o melhor e o pior das diversas versões de mim.

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