sexta-feira, 20 de junho de 2008

Mais um Fim de Semestre

Hoje terminou a cadeira de radiologia. Última prova, sem muitas despedidas e o inveitável desespero quanto às perspectivas das próximas provas que estão por vir. É, mais um fim de semestre na faculdade de medicina. Mas voltando ao assunto da prova, o professor de radiologia pediu nossa colaboração para a "aula da saudade" (que eu to com preguiça de explicar o que é agora), colocando como uma questão da prova o seguinte pedido: "Eu médico. Medos e Esperanças" (ou algo do tipo, mas que espressava esa idéia aí mesmo). E então eu dissertei. Dissertei mas não lavei a alma. Escrevi muito e no fim das contas disse muito pouco. E saindo da prova, já no corredor, apercebi-me que, dentre todas as palavras escritas em péssima caligrafia naquela folha de papel, em nenhum momento o mais importante foi dito. O que eu realmente tinha vontade que ele soubesse não foi explicitado. O que ele, sem dúvida alguma, merecia saber não constava na minha resposta. E então me arrependi. E logo após lembrei que eu havia adicionado o endereço deste blog para o caso de ele querer encontrar mais algumas filosofias de banheiro sobre o que eu penso do meu "eu como médica", e quem sabe até mais alguns eus por aí. Não que eu seja o melhor exemplar dentre os estudantes de medicina, mas eu sou igualzinha a qualquer um de lá, sem muito o que tirar ou pôr. E eis, então, que tranquilizei-me e pensei que ainda poderia ter uma segunda chance de poder dizer o quão especial ele foi pra mim nesse semestre, não tanto pela cadeira em sim, mas pelo exemplo de como ser um bom médico, os ensinamentos empíricos de como ser uma boa pessoa, o exemplo concreto de como ser um bom professor. E eu espero que ele realmente passe por aqui e veja isso, pois é importante pra mim que ele saiba o enorme carinho que eu tenho por ele, desconsiderando todo o tipo de piada que pode ser feita pelo fato de ele "me conhecer por dentro".

E é pensando nisso que resolvi anexar neste blog um texto escrito por mim datado de antes da existência deste endereço eletrônico. Um texto que escrevi no final do meu quinto semestre, em agosto de 2007. Não que seja a leitura mais dinâmica, divertida ou instrutiva possível, mas etm algum valor pra quem quer entender um pouco mais dos sentimentos estudantis de um pseudo-médico ao longo da faculdade. De coração, espero que seja de alguma ajuda, e mais do que eu isso, que eu tenha conseguido expressar aquilo que não pude com caneta e papel na mão.




"Mais um fim de semestre da Medicina.

Fim de semestre. Todo mundo já passou por isso. E todo mundo sabe como é.
Provas. Provas. Provas. Mais algumas provas. Exames.

E muito embora o semestre tenha sido muito diferente do habitual, a rotina de enceramento tem seguido a tradição comum (esclarecendo que eu não considero o encerramento da bioquímica um ritual comum).
Retrocedendo um pouco os acontecimentos, em uma nada (in)consciente tentativa de fugir do exame de competência e de provas finais, volto aos diversos sentimentos que tive durante esse semestre.

Inicialmente, em nenhum momento, dede o início do tempo que minha memória permite classificar como início, eu havia me sentido tão, mas tão, tão incompetente. Lidar com o saber que nada se sabe foi muito difícil no começo. Feliz ou infelizmente eu consegui entender que o erro não foi meu, e sim do sistema. Afinal, sair da fisiologia (onde tudo é normal) e ser largada no hospital (onde tudo é anormal - pois se assim não fosse não haveria porquê ter pacientes por lá), não apenas me tira a obrigação de saber o que se passa com os pacientes, mas primordialmente me da o pleno direito de estar perdida e não saber sobre nada do que é falado.

Mas sabe, minha inutilidade aflorada foi um dos menores problemas (pelo menos depois que eu entendi a causa dela). Assistir a um paciente, ainda que pouco (ou nada) conhecido, literalmente definhar em um leito de UTI, foi mais complicado do que eu previ que fosse quando me perguntavam o que eu faria em tal situação. Ainda hoje tenho vivíssima a imagem dele dissertando a respeito da sua situação pós laxante (mais um dos inúmeros erros da enfermagem que presenciei). Lembro da tamanha felicidade quando teve alta e a face de dor quando inafortunadamente teve que voltar. Contudo, o realmente pior foi ver um corpo sem mente, totalmente amarelo, inchado, com edema sanguinolento palpebral severo. Não sei se o fato de eu não ter visto o corpo sem vida, porém em paz, foi melhor ou pior para o que eu estava sentindo.

Esse semestre foi muito mais que apenas um semestre da faculdade, foi tempo de aprendizagem para a minha vida, toda ela.
Aprendi como é tênua e linha da vida, e como se pode ultrapassá-la num piscar de olhos, abaixo do nariz de muita gente.
Aprendi que os sentimentos alheios são muito mais preciosos que os nossos, e que a compreensão desses diferentes e valiosos sentimentos é que me fará não apenas uma médica, mas uma pessoa melhor.
Aprendi que não se sabe muito mais do que se sabe, e que, embora devamos ao máximo lutar contra isso, temos que entender que assim será sempre. Apenas a humildade poderá tentar tornar nossa inútil situação (um pouco) melhor.
Aprendi que o mais sábio não é aquele que fala palavras de sabedoria, mas sim aquele que consegue guardar para si comentários inoportunos.
Aprendi que a vida é curta e viver é mais importante que tudo, até mesmo do que ser "uma pessoa plenamente realizada pessoal e profissionalmente". Não posso desperdiçar meus dias sabendo que tem tanta gente implorando por apenas mais algumas horas. Coisas abruptas também podem acontecer comigo, e o fato de eu lidar com a doença mascara mas não elimina o medo que tenho de terminar exatamente como quem busco ajudar. "



E assim finalizo esse post.

6 comentários:

  1. Muito legal tua linha de pensamento cris.. eu espero ter esse crescimento dentro da faculdade tbem. Às vezes nem sei se estou preparada pra tanto.. e me parece que seis anos serão mt pouco para que eu esteja apta a "tentar" salvar uma vida. Até pq esses dias me deparei com uma veradasde antes ignorada por mim.. infelizmente não depende de nós td esse preceso.. e sim de muitas outras pessoas que não devem estar preocupadas com isso.Eu me refiro a empresas farm,aceuticas e coisas do ramo. Mas é a vidinha, fazer o melhor que pode.

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  2. OI! :)

    Repetindo posts?

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  3. Às vezes me deparo com situações que estão além do meu controle. Tenho vontade de mudar algo que não pode ser mudado. De fazer o bem a alguém a quem eu simplesmente não tenho permissão de alcançar.

    E no fim acho que vou ficando frio - enquanto antes eu me entristecia e passava horas filosofando, hoje me pego pensando "shit happens"...

    É cruel simplesmente ignorar a dor alheia, mas algém tem que sentar na graxa pra que outro alguém se dê bem, e ajudar uma pessoa só significa que tu deixou de ajudar tantas outras.

    E no fim das contas, ainda me considero otimista! Muito longa história pra comentar aqui... Mas quem sabe um dia... ;)

    Beijos! E visite meu blog, que não tem tanta "filosofia de banheiro", mas talvez tu goste! ;)

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  4. E olha só, eu de novo!

    Só pra agradecer por ser uma leitora assídua.
    E pra dizer que minha vasta experiência em blogs/internet/informática não me permite ainda adicionar teu blog a favoritos e afins.
    E que tô só esperado um Magic de 4! :P

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  5. Dificil encontrar alguém assim, que faça a diferença em nossa vida, vida eterna aos mestres. =)

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  6. Ação e reação, segundo os ensinamentos espíritos todos sofremos porque estamos pagando débitos passados, dos quais não nos lembramos no momento por caridade divina e para evitar julgamentos dos outros... Mas mesmo para mim, que acho o espiritismo uma das 'ciências' não reconhecidas mais lógicas que existem, pois descarta essas outras opiniões sobre 'céu' e 'inferno' que não fazem sentido para mim, peca em um ponto... Como diria o vulcano e 'lógico' Spock, se você me disse que jogou um pesado martelo em um abismo, em um planeta de gravidade forte como a Terra, lógicamente eu não precisaria vê-lo para saber que ele caiu... Seguindo o mesmo raciocínio, se O Criador é 'onipotente', pode tudo, não há limites para Ele, Ele poderia, em tese, alterar essa Lei cármica que nos faz 'sofrer de edemas para pagar dívidas passadas e ou aprender com a dor e o sofrimento'... Talvez eu ainda seja um espírito meio rebelde, mas é o que eu penso e suas palavras me remeteram direto à Lei de Ação e Reação, ou na linguagem mais 'popular', 'Quem deve à Deus paga ao Diabo'... Ainda bem que existem anjos como você que irão nos ajudar e consolar em meus últimos momentos, mas você terá que vir à minha casa para cuidar de mim, pois não desejo desencarnar no Hospital!

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