sábado, 27 de dezembro de 2008

O Último Dia.

Ela acordou com o sol batendo no rosto. Que horas seria aquilo? Nove? Meio dia? Três da tarde? Não sabia ao certo, e a verdade é que nem queria saber. Queria que o tempo apenas passasse e fosse embora, levando consigo todas as mágoas que lhe feriam o coração. Sentiu os olhos enchendo-se de lágrimas. Uma vez mais secou-os e desejou perceber que tudo havia sido um sonho quando finalmente fosse capaz de os abrir. Encorajou-se e encarou o sol alto no céu. Tudo estava em ordem, e no entanto tudo parecia fora de lugar. Sentou-se na cama, levantou devagar e logo dirigiu-se ao computador que jazia a seu lado, ligado, esperando por atenção.

Ligou o monitor, viu que alguns amigos lhe haviam dirigido a palavra no tal de msn durante a noite. Não deu muita bola e fechou as janelas. Atualizou seu blog, nada de novos comentários. Visitou o orkut, sem novos recados. Abriu, então, a janela principal do msn para ver quem encontrava-se on line no momento. Sem muita surpresa, encontrou os contatos já esperados. Parou, quase catatônica, a olhar para a janela, pensamento no vazio. Sentiu revigorada toda a dor dos últimos dias, todo o sofrimento escondido, todo o pesar camuflado. Sentiu tudo vir à tona em uma explosão de raiva e medo, com pitadas de pesar e arrependimento. Desejou imensamente voltar no tempo e poder viver tudo de novo, fazer tudo de novo e até errar tudo de novo. Desejou reviver e reaprender.

Escolheu um dos contatos on line, abriu a janela e escreveu um simples "oi". Recebeu outro "oi" como resposta. Olhou a mensagem pessoal do amigo que dizia "1 dia ^^" e chorou, copiosamente, como uma criança que não ganhou o que queria de Natal. Chorou de medo, chorou de raiva, chorou de pesar. Chorou, e quando não havia mais o que chorar, precisou de um motivo para diminuir a dor da perda. E então, como fêmea acuada, atacou. Atacou do modo mais vil e cruel que conseguiu, fazendo das palavras sua arma, da mágoa sua munição. Atacou como se ferir fosse lhe curar. Atacou com a ânsia da angústia a apertar o peito. Atacou com o desespero, atacou com o medo. E então ruiu. Ruiu como jamais imaginou que poderia ruir. Ruiu em mil pedaços, espalhados ao vento para sempre. E então novamente chorou como fera ferida.

E a fera, parecendo um filhote desprotegido, atirou-se ao leito e abraçou ao travesseiro como se fosse seu salvador, sua única e última esperança, seu ombro amigo para chorar. E então chorou. Chorou até as lágrimas secarem. Chorou até a cabeça doer. Chorou até adormecer. Adormeceu sem entender. Quanto tempo havia dormido? Não fazia idéia, o sol ainda reinava alto no céu. Endireitou-se na cama, secou o suor da testa e pensou. Pensou com as idéias ainda meio embaralhadas do sono, da dor e do sofrimento. Pensou e tentou organizar o que jamais poderia ser organizado. Pensou e novamente chorou.

Nas infindáveis horas que se passaram lembrou de todas as coisas que havia acontecido até então. Sua mente vagou pelas cócegas e quedas no chão molhado, pelos estranhos acontecidos no fatídico sarau, pelo doce de pêssego naquele aniversário esquecido. Lembrou do fim, da despedida e do reencontro. Lembrou das reuniões sob o sol, do divertimento sob a água. Pensou em tudo o que disse e não deveria ter dito, e em tudo o que deveria ser falado e no entando não falou. Lembrou dos sonhos, dos planos, dos desejos e até das mentiras. Lembrou do que não deveria ser lembrado, imaginou o que não deveria ser imaginado. E assim, perdida em pensamentos, banhada em lágrimas torcida na cama feito um feto no útero quente e protetor da mãe, passou o última dia.

Gastou o último dia em meio a dor, sozinha, chorando, pensando e sofrendo. Sentia-se como um animal acuado, como uma criança com medo do bicho papão. Desejou que o tempo logo passasse mas ao mesmo tempo que ao início retornasse. Sentia que, ao negar a existência de um último dia, este não existiria e tudo voltaria ao normal. Porém ele existiu, e existindo ele passou. E passando deixou marcas. As marcas da lembrança de um último dia dedicado à dor e ao rancor. Ao arrependimento de ter feito muitas coisas, não ter feito outras tantas, não ter dado um forte abraço. Não ter dado um beijo a mais. Sim, apenas um beijo a mais.

Já noite escura, perdida em um lago de lágrimas, o maior arrependimento que ficará é o de não ter dado, pelo menos, um beijo a mais. Quanto ao resto, tudo se desvia, tudo se contorna. Afinal, o mundo não é um lugar tão grande assim. E com essa esperança de que o para sempre não é tanto tempo e o nunca mais não existe, novamente adormeceu. Adormeceu para encontrar a si mesma no dia após o último dia.


6 comentários:

  1. Querida, eu queria poder te abraçar e deixar tuas lágrimas rolarem pelo meu ombro.

    ResponderExcluir
  2. " Tudo passa, tudo passará...

    E nossa estória não estará pelo avesso
    Assim, sem final feliz.
    Teremos coisas bonitas pra contar.

    E até lá, vamos viver
    Temos muito ainda por fazer
    Não olhe pra trás
    Apenas começamos.
    O mundo começa agora
    Apenas começamos."

    Pensa nisso, tá?
    beijo e fica bem. Me emocionei com teu texto.. transborda teus snetimentos nele.

    ResponderExcluir
  3. Um, um... um... abraço, pode ser?
    Guria.... tenho que te dizer uma coisa, seca as lagrimas e pega a bolsa.
    Eh a bolsa, e vamos começar a juntar dinheiro pra passagem pra Vegas que eh 2500 reais.
    E assim, reforçaremos a teoria de que o pra sempre é possível e que o nunca mais, é coisa que não existe pra quem ama de verdade... Viu?
    Afinal, nem vamos sair do continente ehehhehe beijokas te adoro!!!

    ResponderExcluir
  4. Já conversei contigo sobre experiências passadas né...
    Mas enfim, não adianta quanto tempo tu tivesse pra se despedir, tu sempre vai querer dar mais um abraço, um beijo ou dizer que ama mais uma vez.
    O importante agora é não esquecer nunca do que vocês tiveram, e manter a amizade viva nos corações.
    As vezes é bom o tempo nos ensinar a amar de uma forma diferente...
    =]

    ResponderExcluir
  5. Sempre eh bom ler isso daqui :)

    ResponderExcluir
  6. Oi, Guria! Pena que não pude te encontrar na linda Pelotas. Espero ver-te num futuro próximo. Um feliz 2009 pra nós! Ah: estou voltando à ativa. Bjo!

    ResponderExcluir

Fala que eu te escuto.