Melodia soou quebrando o silêncio da manhã ensolarada. Rolou na cama, abraçou o travesseiro, resmungou. Retendo o impulso de atirar o celular contra a parede, criou coragem para começar um novo dia, ainda remoendo mentalmente o dia anterior. Tomou banho, vestiu-se, maquiou-se, refez a mala e partiu. Tão interna e intensamente perdida em pensamentos, naquele momento não saberia responder a roupa colocada, ou os itens contidos na bolsa, sequer o destino para o qual as pernas parcialmente à mostra automaticamente a guiaram naquela quente manhã de março.
Piloto automático em pleno funcionamento, lá pelo meio da manhã o transe foi interrompido pelo tremor do celular que, até então, jazia inerte no bolso próximo ao seio. Mensagem de texto cujo remetente era justamente aquele que havia ocupado seus pensamentos preocupadamente até aquele momento. Com o celular em uma mão e a caneta inerte na outra, olhos parados, quase perdidos no tempo, o corpo presente abriga, quase que indefinidamente, uma mente distante, perdida em devaneios.
Ela achava difícil entender o que os outros pensam, sentem, porém mais difícil ainda, naquele momento, era entender a confusão de pensamentos, mais que isso, sentimentos que turbilhonavam incessantemente em seu interior. Não conseguia parar de pensar nos acontecimentos dos últimos dias, em como o inocente 'pagar para ver' tinha transformado-se em um misto de paixão, quiçá amor, culpa, quiçá remorso, insegurança, quiçá medo, ansiedade, quiçá sofrimento.
Pensou em todas as conversas, em todas as coisas explícitas e em todas as não explícitas, em todos os toques, todos os olhares, todas as sensações. Lamentou que determinadas facetas do seu ser tenham ficado tão explícitas, entretanto lamentou também que outras partes do seu íntimo tenham ficado tão submersas em medos e inseguranças. Lamentou algum dia ter cedido à curiosidade, perecendo frente a tamanha incongruência entre razão e emoção, quase chorando tendo que assitir inerte aos argumentos da razão mandando correr o mais longe que puder, enquanto o tolo coração só sabia pedir para, de olhos vendados, jogar-se no abismo da luta e da entrega.
Ela gostaria de ter deixado claro seu medo, sua insegurança, ainda que, certamente, isso não fosse necessário. Pela primeira vez em muito tempo ela quis conseguir expressar todo o sentimento reprimido. Quis mostrar que, por mais que as aparências mostrem o contrário, como de fato mostram, o abandono mediante uma fuga a Paris, diferentemente de uma possibilidade real, não passa de uma tola e infantil máscara, mentirosa, quase uma muralha erguida por quem tem medo da entrega. Quis mostrar que a postura superior e decidida, quase desafiante, em nada se relaciona com a adrenalina inerente ao momento, muito pelo contrário, nada mais é que uma forma de encarar a desconfortável situação e fazer de conta que não é tão ruim quanto parece. Sem promessas vazias, quis, ao mesmo tempo que não quis, deixar transparecer o medo, o desejo...
Vindo de muito longe, baixinho, ouviu seu nome ser chamado, quiçá gritado, trazendo-a repentinamente de volta à realidade. O celular voltou ao bolso, a caneta voltou a correr fervorosamente o papel. Os pensamentos voltaram momentaneamente à realidade laboral. Ansiosamente a vida continuou, sedeando a interminável batalha entre razão e emoção. No fim das contas resta apenas um coração ciente da irracionalidade do seu desejo, contrastando com a sapiência que não cansa de frisar todo o potencial doloroso que há logo à frente. O problema é que, bem sabia ela, quando ela se envolve... ela já se envolveu.
Piloto automático em pleno funcionamento, lá pelo meio da manhã o transe foi interrompido pelo tremor do celular que, até então, jazia inerte no bolso próximo ao seio. Mensagem de texto cujo remetente era justamente aquele que havia ocupado seus pensamentos preocupadamente até aquele momento. Com o celular em uma mão e a caneta inerte na outra, olhos parados, quase perdidos no tempo, o corpo presente abriga, quase que indefinidamente, uma mente distante, perdida em devaneios.
Ela achava difícil entender o que os outros pensam, sentem, porém mais difícil ainda, naquele momento, era entender a confusão de pensamentos, mais que isso, sentimentos que turbilhonavam incessantemente em seu interior. Não conseguia parar de pensar nos acontecimentos dos últimos dias, em como o inocente 'pagar para ver' tinha transformado-se em um misto de paixão, quiçá amor, culpa, quiçá remorso, insegurança, quiçá medo, ansiedade, quiçá sofrimento.
Pensou em todas as conversas, em todas as coisas explícitas e em todas as não explícitas, em todos os toques, todos os olhares, todas as sensações. Lamentou que determinadas facetas do seu ser tenham ficado tão explícitas, entretanto lamentou também que outras partes do seu íntimo tenham ficado tão submersas em medos e inseguranças. Lamentou algum dia ter cedido à curiosidade, perecendo frente a tamanha incongruência entre razão e emoção, quase chorando tendo que assitir inerte aos argumentos da razão mandando correr o mais longe que puder, enquanto o tolo coração só sabia pedir para, de olhos vendados, jogar-se no abismo da luta e da entrega.
Ela gostaria de ter deixado claro seu medo, sua insegurança, ainda que, certamente, isso não fosse necessário. Pela primeira vez em muito tempo ela quis conseguir expressar todo o sentimento reprimido. Quis mostrar que, por mais que as aparências mostrem o contrário, como de fato mostram, o abandono mediante uma fuga a Paris, diferentemente de uma possibilidade real, não passa de uma tola e infantil máscara, mentirosa, quase uma muralha erguida por quem tem medo da entrega. Quis mostrar que a postura superior e decidida, quase desafiante, em nada se relaciona com a adrenalina inerente ao momento, muito pelo contrário, nada mais é que uma forma de encarar a desconfortável situação e fazer de conta que não é tão ruim quanto parece. Sem promessas vazias, quis, ao mesmo tempo que não quis, deixar transparecer o medo, o desejo...
Vindo de muito longe, baixinho, ouviu seu nome ser chamado, quiçá gritado, trazendo-a repentinamente de volta à realidade. O celular voltou ao bolso, a caneta voltou a correr fervorosamente o papel. Os pensamentos voltaram momentaneamente à realidade laboral. Ansiosamente a vida continuou, sedeando a interminável batalha entre razão e emoção. No fim das contas resta apenas um coração ciente da irracionalidade do seu desejo, contrastando com a sapiência que não cansa de frisar todo o potencial doloroso que há logo à frente. O problema é que, bem sabia ela, quando ela se envolve... ela já se envolveu.
O_o ... Simplesmente Fantástico!
ResponderExcluirAss: Dudu
A manhã ensolarada se foi, os últinos raios de sol alaranjavam o rio, hesitante ele tocou seu rosto,e seus olhos permitiram que seu coração se mostrasse.
ResponderExcluirquão irônico...
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