Tem dias que o mar não está pra peixe. E quando a falta de peixe do nosso mar já começa na segunda-feira de manhã parece que tudo só tende a piorar. E geralmente só piora. É nessas horas que eu tenho vontade de mandar a mulherada que inventou de queimar sutiã enfiar essa infeliz idéia lá onde não pega sol e me deixar bater meu carro e me deprimir, em vez de me obrigar a tirar sobriedade sabe-se deus de onde e trabalhar.
Nessas horas aquele baita clichê do filme se passando na cabeça da gente nem parece tão clichê assim. São tantas cenas ao mesmo tempo que algumas eu nem tenho certeza se aconteceram mesmo ou se eu imaginei. É tanta gente e tanto burburinho que no fim das contas a sensação que eu tenho é de que não tinha ninguém. E, pra falar bem a verdade, eu acho que não tinha ninguém mesmo. Pelo menos não pra mim. Não por mim.
Pela primeira vez em todos os meus vinte e quatro anos eu me senti completamente sozinha. E eu acho que essa é a verdadeira sensação de liberdade, de maturidade, afinal de contas. Eu não tinha ninguém pra quem ligar, ninguém pra quem dar a mão, nenhum ombro pra chorar, nenhum olhar para me reconfortar. E por mais que alguns tivessem vindo prestar falsa preocupação ao perguntar como eu estava, dificilmente eles saberiam lidar com uma resposta diferente de "bem". Porque a verdade é que, embora rodeada de pessoas, eu estava ali sozinha.
Depois de um dia inteiro tentando resolver os problemas dos outros foi que eu pude começar a tentar resolver os meus próprios. Cheguei em casa exausta, escorei a cabeça no confortável encosto do sofá que EU escolhi e EU comprei com o MEU dinheiro fruto do MEU trabalho, peguei no colo meu cão carente e só então percebi era a Chica quem esteve presente comigo durante minhas conquistas nos últimos dois meses. E agora é também a Chica quem está comigo nessa pequena desgraça financeira e moral que sobre mim se abate.
Entretanto, caro leitor que neste momento eu nem sei quem é, não seja ingênuo de pensar que isso é uma "bad", porque não é. Tantas coisas fui capaz de conquistar acompanhada apenas do meu cachorro, orgulho-me por conseguir enfrentar também as intempéries na companhia da minha mais peluda amiga. Amiga que esteve comigo em todos os meus momentos, tenham sido estes vitórias ou derrotas, nos últimos dois meses. Muito provavelmente também será apenas ela que, fielmente, comigo estará pelos próximos quinze anos.
E talvez pela primeira vez eu tenha enfrentado um problema inteiramente sozinha, sem chorar, sem gritar, sem desabafar. Ainda que tenha gritado silenciosamente por ajuda - afinal gente grande também tem o direito de fraquejar - levantei e caminhei por mim mesma, sem dispor de ajuda. Talvez pela primeira vez eu tenha utilizado meus próprios materias de limpeza para arrumar a sujeira que eu fiz, comprados com o meu dinheiro, oriundo do meu trabalho. Sem reforço de ninguém para nada em nenhum ponto direto do processo. Embora trabalhoso, caro, quiçá doloroso, é extremamente prazerosa a sensação de finalmente crescer, afinal é isso que é ser adulto, não é? Ser responsável integralmente pelos seus atos.
Na maioria das vezes eu também me sinto sozinha. Mas afinal de contas, se a gente faz a merda, a gente tem que resolver sozinha, não é mesmo? Mas eu grito também, pela ajuda de alguém, embora na maioria das vezes essa ajuda não venha. Sim, isso é ser adulto. Sim, esse é o mundo capitalista e egoísta.
ResponderExcluirMas nem sempre todos que perguntam se estamos bem estão sendo falsos. Às vezes ele estão ali só esperando que a gente diga que está mal, pra poder consolar, pra poder fazer alguma coisa.
Só que a gente bloqueia todo mundo. Prefere ficar sozinha. E isso é uma escolha.
Você vai conseguir resolver esse seu problema específico, e os outros que virão, pois sempre tivestes força de vontade e determinação.
Algumas pessoas, no mesmo caso, teriam se escabelado muito mais.
Mas não se isole absolutamente. Tem gente que te ama.