Nesta noite de sábado, terminando uma semana em que nada deu certo seguindo uma outra semana em que nada também deu certo, dando continuidade à vibe de um ano que eu preferiria fingir que não existiu, fiquei em casa, sozinha, de pijama, com o rosto inchado, sem maquiagem, cabelo despenteado. Sem entender muito bem qual foi o furacão que destruiu a minha vida, escolhi Marley & Eu para me acompanhar nos embalos do sábado à noite da depressão.
Já na primeira cena do filme tive certeza que a escolha havia sido o mais automutilante possível, afinal uma médica escritora frustrada que no período de uma semana enfrentou a morte drástica e inesperada de seus dois cachorros só pode querer sofrer ao ver um filme que conta a história de uma família feliz de dois jornalistas e seu endiabrado labrador Marley.
Eu até que estava feliz, sabem. Profissionalmente falando tudo andava uma droga, mas eu já estava conformada com a saúde pública de Pelotas ser uma porcaria e já tinha decidido procurar novos horizontes de acordo com a profissão que eu escolhi. Também já estava conformada com minha falta de aptidão pra relacionamentos e não me importava nem um pouquinho em ser aquele tipo de pessoa que volta pra casa por um cachorro. Ou dois cachorros, no caso.
Até que veio deus, esse sacana, e me fez ver, no espaço de tempo de uma semana, minhas duas companheirinhas adoecerem e morrerem, sofrendo, uma depois da outra. E eu só posso culpar deus pelas desgraças da minha vida - e da delas - , afinal meus cães eram exclusivamente de apartamento, vacinados com vacina importada, desverminados. Tudo com os melhores produtos que a veterinária oferece e nas datas corretas, sem atrasar ou adiantar um dia sequer. E aí deus, qual foi a minha parcela de culpa nessa tragédia? Qual foi a escolha errada que eu fiz? Pois é.
E nesse sábado aqui estou eu, sem nenhuma bolinha de pelo abanando toco de rabo pedindo colo. Sem ninguém roendo meus sapatos. Sem ninguém tentando aprender a subir e descer do sofá. Estou aqui sozinha, procrastinando dar um fim na ração que sobrou, pensando no que fazer com as almofadas e os potes de comida e água. O xampu anti-pulgas ainda está na cantoneira, junto com os meus no banheiro. E eu, a partir agora, nem cachorro tenho mais para voltar.
Não sei o que vai ser da minha vida daqui pra frente. O futuro é incerto e nebuloso. Não sei mais onde irei morar, no que irei trabalhar, prova para quais residências prestarei. Só espero que, caso eu decida aceitar algum cachorro novamente nos meu braços, ele seja tão fiel, meigo e carinhoso como foi a Chica nesse período que estivemos juntas. Quase inacreditável como uma coisinha tão pequena pode trazer alegrias tão grandes. E tristezas também...
Com os olhos marejados de lágrimas fico pensando no quão verdadeiras, apesar dos pesares, são as palavras finais do filme Marley & Eu. Parafraseando, cachorros não se importam se somos bem sucedidos ou não, inteligentes ou não. Não se importam com riquezas nem roupas de grife. Eles nos amam incondicionalmente, é só abrirmos nossos corações a eles. De quantos seres humanos a gente pode dizer isso, afinal?
Saudade da Chica que pulava da cama com o bipe do alarme e esperava atrás da porta. Por horas ficava mordendo os dedos, depois lambia o rosto e deitava quietinha no peito.
ResponderExcluirSó um pouco de muito em pouco tempo.
Saudade da Chica.